sábado, 11 de fevereiro de 2023

CRÓNICA AO CORRER DA PENA

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AC
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Segundo alguns estudiosos, há aquilo que queremos ser, aquilo que os outros querem que sejamos e, em última instância, aquilo que realmente somos.
Quase parece uma regra três simples, sujeita à nossa vontade, mas nestas coisas, quando o sentido da vida é o foco, nada é simples, por mais que se multiplique isto, divida aquilo, equacione aqueloutro. E, enquanto nos questionamos, a vida vai discorrendo, sem contemplações para angústias e dilemas, sorrindo de soslaio perante tanta interrogação. 
Para um observador mais cínico, com o desdém à flor da pele, a referência bíblica "crescei e multiplicai-vos" é motivo de motejo. É que nós crescemos cultivando a multiplicação, de tal forma que já excedemos a quota da sustentabilidade e, além de não nos desenvolvermos de uma forma espiritual, continuamos nos primórdios em termos de objectivos: limitamo-nos a sobreviver, a simplesmente sobreviver.
Bem sei que há a ciência, a arte nas suas múltiplas formas, a filosofia e a religião, mas, da forma que os auto-proclamados chefes da barca a estão a conduzir, tudo se resume, para a imensa maioria, ao (mau) exemplo romano: pão e circo. Quo vadis, humanidade?
Reparo agora que, ao iniciar a crónica, e dispondo da fotografia que encima o post, a intenção era ser positivo. E eu, que me refugiei num pequeno paraíso natural, constato o evidente, para lá da minha individualidade: crescei e multiplicai-vos, sim, mas em amor, justiça, esperança e respeito pelo outro, com cada um a fazer a parte que lhe corresponde. Tão só. O resto vem por acréscimo.
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domingo, 5 de fevereiro de 2023

QUANDO DO ESCURO SE FAZ LUZ

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Margarida Cepêda, Violino e chantili
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Ele chegou cedo, tal como estava previamente combinado, sendo recebido com todas as mordomias por quem estava presente. Mas faltava algo.
- O avô? - questionou ele, perante a imperdoável falta do visado.
O avô, esse compincha dos sete costados, que tinha o condão de poder voltar a menino na sua presença, estivera de véspera a ver um filme, que o prendera até tarde, sem noção das horas, e só agora começava a abrir os olhos. Contudo, mal se apercebeu dos primeiros sinais do neto, levantou-se num ápice, qual adolescente no encontro com o primeiro amor e, abrindo os braços, exclamou, de forma espontânea:
- Migueeelll!!!!
O neto, dois anos e meio de gente a crescer, a cada dia que passa, não se coibiu de notar, enquanto o abraçava, em jeito de reprimenda:
- Avô! Tu gostas do escuro?
Na sua interpretação das coisas, qual luz vitoriosa sobre todas as sombras, ele tinha razão, mas deixei as explicações para mais tarde. Limitei-me a abraçá-lo, ainda mais, qual manto protector de todos os males do mundo. 
Faz-me tão bem, este menino!
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sábado, 21 de janeiro de 2023

HÁ (E HAVERÁ) EM JEITO DE MANIFESTO

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Margarida Cepêda, No coração da rosa

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Há um sorriso que se abre, permanente, conjugando a conexão.

Há um fogo que arde, persistente, em constante maturação.

Há uma vida que se assume, consequente, dando lastro à razão.

Há um abraço que emerge, abrangente, dando voz ao coração.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

A AVÓ TITA

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AC
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Viera da grande cidade, sem dar cavaco a ninguém, ocupar a casa dos pais, gente de posses herdadas  noutras eras. Os filhos já nasceram na grande cidade, mas ela por ali dera os primeiros passos e, apesar de cedo dali sair, ficaram, para sempre, gravados na sua alma, os recantos, os sons e os aromas daquela xistosa aldeia, no sopé da serra, com uns laivos de granito, banhada por uma ribeira que, nos seus verdíssimos anos, lhe parecia um enorme rio.
Indiferente à modorra do lugar, ela passava, desconcertante, umas vezes a pé, outras de bicicleta, desafiando tabus e conveniências.  O ramerrame não era com ela, isso era garantido, indiferente ao apontar do dedo de vetustas tradições. E, quanto mais a apontavam, mais ela prosseguia. E sorria. Em modo tranquilo, diga-se, tal como a grande tília que, no fundo da propriedade, adornava o morro que circundava o espaço sobranceiro à casa, aparentemente satisfeita com o toque paisagístico que dava ao tom geral da construção. Agitava os ramos, na ventania, mas não passavam de ligeiras cócegas que sorriam, docemente, para quem sabia ver e ouvir, tal era a sua robustez e a forma com que se agarrava à terra, apesar de algumas raízes à mostra, que atraíam, sobretudo, ingénuos fotógrafos, para lá duma diversificada classe de passarada. E, contra tudo e contra todos, ela lá permanecia.
À noite, depois do jantar, quem passava perto ouvia, vindas da casa, algumas notas de piano, as suficientes para adensar a quase lenda daquela personagem. E dizia-se isto, dizia-se aquilo. Mas, lá no íntimo, começavam a admirá-la.
Um dia, sem qualquer pré-aviso, a casa inundou-se de vozes alegres, descomprometidas, que davam nova vida ao lugar. Os netos, em férias escolares, finalmente vinham visitar o velho rincão da avó Tita, que tantas vezes, de soslaio, ela mencionara antes de lhes ler qualquer história. Um mero aperitivo, mas tão sentido pela narradora que, sem se darem conta, lhes ficara tatuado na alma.
Os dias passavam, alegres, ou não fosse verão. De manhã, com toda a gente já bem desperta,  ensaiavam-se umas escapadelas até aos terrenos da família, que o ti João tratava com desvelo. A avó Tita, sempre de olhos brilhantes, aproveitava o momento para "puxar" pelo Ti João acerca daquela árvore, daquela rocha ou daquele pássaro, e o velho não se fazia rogado: discorria, compenetrado, acerca de tudo o que o rodeava, transformando o momento numa envolvente aula ao ar livre, com calorosa participação da pequenada, ávida de descodificar tudo aquilo que a rodeava.
Embalados pelo ar campestre, não lhes faltava apetite ao almoço. E, por entre risadas, depressa os pratos ficavam vazios, perante a satisfação da matriarca.
Depois do almoço, após cada um lavar o seu prato, toda a gente tinha direito a uma pequena pausa para o que lhe aprouvesse. Depois, qual maré iluminada pelos olhos da avó, sempre omnipresente, promoviam-se sessões de leitura, com alguma solenidade, e animados ensaios de uma peça de teatro, onde cada um descobria pormenores dos outros que, até aí, desconhecia.
A meio da tarde, com o sol já mais tolerante, a incursão à ribeira, mais por exigência deles, era obrigatória. E nadavam, riam, pregavam partidas uns aos outros... Imersos na sua espontânea alegria, nem se apercebiam que o seu entusiasmo provocava sorrisos de contentamento nos velhos habitantes da aldeia, alheios que estavam ao canto ingénuo do desabrochar da vida.
Já recolhidos, e após plena satisfação de apetites, a avó Tita reunia a "tropa" na varanda e, quase num murmúrio, reivindicava silêncio. Chegara a hora de, num ancestral ritual, o astro se despedir, por entre os montes, com um eterno piscar de olho, todo melado, como que prometendo, aos crédulos observadores, que o amanhã seria ainda melhor. E eles, imbuídos daquele mágico esplendor, ainda que efémero, acreditavam.
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domingo, 8 de janeiro de 2023

O AMOLADOR

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Num tempo em que o normal era medido, por precaução, em ressonâncias de múltiplos espelhos, fossem eles o que fossem, calhou um dia em que, nas calibragens de espera do faz de conta que é a vida, as têmporas dum santo parecessem azuis. E as pessoas, desidratadas de interrogações, socorrem-se do mais básico que a sobrevivência lhes proporciona: ai Jesus, que lá vem isto, ai meu Deus, que lá vem aquilo.
Estava-se nisto, num compasso de nem enferrujar nem desenferrujar, quando, um dia, na aldeia avessa a mudanças, apareceu por ali um velho amolador sorridente, muito sorridente. E, para lá do entoar da tradicional gaita, desembrulhava ditos de fazer sorrir, ancorados em vislumbres de visões para lá do horizonte.
Os velhos olhavam, desconfiados, mas as crianças, eternamente viradas para o mundo, seguiam-no com avidez, não fossem perder algo para lá do ramerrame. E o amolador, sentindo que tinha público, embora não pagante, começava a contar histórias de antanho, todas com um denominador comum: apesar das intempéries, coisas de deuses caprichosos, as personagens acreditavam que tudo poderia ser vencido pelo engenho e pela arte, pela vontade e perseverança. Festa, a haver, só no final dum bom desiderato.
Tal como surgiu, e após um ou outro serviço com uma moeda a tilintar, assim o velho sumiu, com um último trinado a refugiar-se nas pedras das casas. E, vá lá saber-se como, sabia, qual dever cumprido, que as crianças da aldeia jamais o esqueceriam.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

EFÉMERO GRAAL, ETERNO PROCURAR

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AC
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Já discorreu algum tempo, imenso na dimensão dos homens, eterna condição efémera, mas ele, persistente na busca da cumplicidade, sem enfeites, teima em rebuscar um sol maior, olhos nos olhos, qual resguardo tecido na mais pura claridade, que é de factores como a luz, com muita água em resguardo, e do abraço, sincero, que a vida brota.
Ela, eterna garimpeira duma intenção maior, persiste em pesquisar nas estrelas, para lá de si e dos outros, como se tudo se conjugasse duma forma astral, com uns pozinhos de ancestral. 
Eu sei e, no meu íntimo, sei que ela também sabe, que as imperfeições vão muito para lá duma sessão nocturna a observar a lua, que as fraquezas são simples adornos da nossa condição, numa teia muito bem tecida por algo que nos ultrapassa.
Apesar de tudo, ela não se resigna quanto à teia, eu também não. E, enquanto especulamos, e convergimos, vamos aproveitando a luz das estrelas, com a lua, quando de feição, como aconchego. Nessas alturas o tempo deixa de contar.
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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O FEITICEIRO E O MENINO

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AC
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Havia uma árvore, um horizonte e um feiticeiro.
Como a ciência começava a imperar, o feiticeiro tomou a resolução da sua vida: esperou pelo fim de tarde, trepou à árvore e, solenemente, abrindo os braços, sentiu os últimos raios de sol como se da coisa mais importante se tratasse. Depois, lentamente, olhou em volta, como se tudo quisesse absorver, e preparou-se para o último mergulho da sua vida. Foi então que, vinda das proximidades, ouviu uma voz infantil:
- Olha, avô, que ave tão grande está poisada naquela árvore! Vai voar?
O feiticeiro, incrédulo, ficou estarrecido. E só então, qual revelação suprema, percebeu donde emanava a verdadeira luz. E, descendo da árvore, correu para abraçar o menino.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

SABERES EM VIAS DE EXTINÇÃO

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No vale, ainda antes de alguém acordar, espalhara-se um nevoeiro que tudo envolvia, que tudo devorava.
Quando despertaram as primeiras almas, e muitas havia que acordavam cedo, já não era possível escapar às garras do intruso. E, quase sem se darem conta, o pequeno-almoço já não sabia ao mesmo: havia algo, quase indefinível, que tolhia o movimento das pupilas gustativas.
Adriana,  imponente nos seus oitenta e muitos anos, rijos e de boa saúde, esgueirou-se por entre veredas, contrariando ideias feitas e maus olhados, e encaminhou os passos, ainda certeiros, para as courelas do Vale da Ponte, propriedade ancestral da família, onde as maçãs bravo esmofo e os figos pingo de mel já deveriam estar no ponto.
Colheu, avaliando a fruta, embalada pelo protesto de alguma passarada que via, de repente, ser-lhe interrompido o banquete, principalmente dos figos. Já a cesta estava cheia, com alguma humidade a escorrer dos frutos, quando se lhe deparou o inusitado: um raio de luz, irrompendo a névoa, parecia fixar-se, por entre as ervas secas, resquício dum verão inclemente, sobre um objecto metálico. Estacou, aproximou-se, olhou com atenção e... era a chave da loja onde costumava guardar o resultado das colheitas.
Não se benzeu, não agradeceu aos céus, não invocou qualquer crença sobrenatural. Limitou-se a sorrir, tranquila, enquanto pensava, de si para si, que a velhice tem as suas manhas, o que era preciso era saber aceitá-las. E continuava a sorrir, olhando de soslaio para a cesta, enquanto irrompia num passo suave, mas cadenciado, pelo pó do caminho, em direcção à sua casa de sempre.
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sábado, 23 de julho de 2022

JOGO DAS ESCONDIDAS - 1

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Margarida Cepêda, Procurando o princípio
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Ela foi ali e não disse, mas quis. A sua mãe, depois de dissertar acerca dos mil e um perigos da vida, deu-lhe um beijo e aconchegou-lhe o lençol.
Ela foi mais além e não disse, mas quis. A sua mãe, em silêncio, nada lhe disse, mas aconchegou-lhe o lençol de forma diferente.
Ela foi para muito longe e, olhando para trás, quase que não queria, mas foi. A sua mãe, qual ocaso da vida, limitou-se a acenar. 
A sua mãe partiu, mas não queria. E ela, sem certezas na vida, passou a mão pelo lençol que ela lhe tinha colocado na mochila. E, talvez tarde de mais, deixou que as barreiras do dique se soltassem e chorou, abundantemente, irrigando o caminho que ela, qual mortal errante, continuava a não descortinar. Mas, rompendo as margens, qual herança de pedra sem musgo, ousou continuar.
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domingo, 17 de julho de 2022

RENASCER

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Elvira Carvalho é uma blogueira muito conhecida, que espalha gentileza, boas maneiras e, contrariando as várias maleitas que a têm afectado, uma vontade enorme de viver. 
Há dias fez-me chegar às mãos o seu terceiro livro, Renascer de seu nome, em edição bilingue, pois nuestros hermanos estão mesmo aqui ao lado, e fazia-me um pedido: que lhe transmitisse a minha opinião. Pois bem, ela aqui fica.
A Elvira tem um forma muito peculiar de escrever. As vírgulas, por vezes, gostam de jogar às escondidas, trocando de lugar com um sorriso, mas quem a lê entra no jogo facilmente, tal a torrente de situações que lhe brotam da pele. E é ver, e sentir, a cruzada dos seus protagonistas, enfrentando o mau humor do destino com muita resiliência, sempre na boa fé de que a verdade é como o azeite.
Neste romance a autora descreve as emoções de Carlos, refém dum conceito de honra que ele cultiva como poucos, após um ferimento na guerra colonial que lhe subtraiu a memória. O enredo desenrola-se como se de um filme se tratasse, com vários locais de "filmagem" - Angola, Lisboa e Peso da Régua - a dar cor e substância à obra, recheada de incertezas, com a emoção e as incertezas do amor sempre presentes.
Renascer, tal como todas as obras da Elvira, lê-se num ápice e de forma muito agradável. No final, no meio de um suspiro, fica a sensação, que transpira das palavras, de que a autora, já tendo passado por muito, tem uma vontade enorme de participar no equilíbrio colectivo, devidamente alicerçada num mundo mais justo, com valores não hipotecáveis.
Parabéns, Elvira!
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