sábado, 18 de fevereiro de 2017

CLARIDADE

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Há dias em que, quando a claridade chega, teimas em te enfeitar, vestindo as roupas mais claras. 
Dizes, com invejável serenidade, que cada hora tem os seus rituais, que a harmonia se alimenta de estados, de vontades, de comunhões. Se recebes claridade tens que, em humilde postura, ser elo transmissor, que a reflectir para tudo o que te envolve, te rodeia, para a diversidade do mundo que, até ao momento, conseguiste abranger. 
Ainda argumento, em exercício simulado, só para te ouvir, que a luz poderá ter mil leituras, com postos de recepção diferentes, mas tu, leitora atenta da forma e da tonalidade das nuvens, limitas-te a sorrir, persistindo em transmitir a claridade que te envolve. É assim que sentes a vida, é assim que a tentas abraçar. 
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ACERCA DA LEVEZA DA NEVE, EM MODO CONFORTÁVEL

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Fotografia de AC
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quando cai neve
nada prescreve
nada se deve
tudo parece leve
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quando neva
nada me leva
tudo me enleva
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Fotografia de AC
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TEAR

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Fotografia de AC
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Gosto do teu sorriso, sempre gostei. Lembras-te quando, em delicioso jogo de permanente descoberta, teimavas em escondê-lo, dissimuladamente, para eu o adivinhar? Era no tempo em que apenas tinhas olhos para o brilho das rosas, inebriada pelo seu perfume, deixando na sombra uma infinidade de pequenos sinais. 
Agora, quando sorris, o toque é mais discreto e profundo. Aprendeste que o dia não é só feito de alvores e ocasos, que é nesse intervalo que muito se conjuga da consistência dos passos, nem sempre embalados pelo canto das aves. Caminhaste tanto que, quando olhas para as coisas, o sorriso, mesmo em esboço, é bordado pelos mais finos teares de compreensão da vida.
Hoje, eterno cúmplice de mil estradas, já não espero pelo teu sorriso. Sei que, para lá dos humores do tempo, acabaremos por nos encontrar em qualquer parte do dia.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

RASTEJAR, ALEGREMENTE, NA AUSÊNCIA DA SEMENTE

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Fotografia de AC
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A semana foi intensa, com as exigências do trabalho a ofuscar qualquer olhar circundante, possível passaporte para amenizar a ditadura da obsessão produtiva. 
A escola, meu local de realização profissional, está a tornar-se, cada vez mais, epicentro único do percurso educacional, relegando a família para segundo plano. Por melhores que sejam as intenções, a verdade é que a maioria dos alunos deste país - há excepções, todos sabemos - apenas convive com os pais ao deitar e ao levantar e, quase sempre, com uma disponibilidade deficitária: à noite estão todos cansados, de manhã é o desagradável despertador a ditar leis, dando o sinal de partida para nova correria. Nas escolas, assumindo múltiplas facetas (professor, pai, psicólogo, enfermeiro, confidente...) os professores - alguns, é certo, mas creio que parte significativa - fazem o que podem, tentando que a compreensão da estrutura da vida faça sentido; lá fora os pais esforçam-se por cumprir as exigências, cada vez mais musculadas, dos horários de trabalho, moldando-se à luta pela sobrevivência, ao mesmo tempo que aconchegam, por mais discreta, a esperança dum amanhã mais desanuviador; os políticos fazem contas às metas, analisando obscuros mapas e gélidas grelhas, procurando ir ao encontro das exigências do verdadeiro poder, que se esconde na sombra, sob um imposto denominador comum: o obscurecer da essência humana; a maioria dos meios de comunicação social, adaptados ao papel de modernos necrófagos, teimam em explorar a miséria das pessoas; discute-se, na Assembleia da República, o incómodo tema da eutanásia, mas os argumentos são mais calorosos que esclarecidos; as alegrias e tristezas da tribo refugiam-se, cada vez mais, em obscuros futebóis, verdadeiro muro das lamentações...
Curiosamente, ou talvez não, e atendendo à efervescência do Facebook, toda a gente parece contente, radiante, a vida parece um mar de rosas. É preciso, acima de tudo, parecer, enquanto, paralelamente, os radicalismos se insinuam, cada vez mais, para lá das sombras.
Lá fora, enquanto escrevo, a chuva não cessa. Já ousei desafiá-la para ver a horta, devidamente protegido, embora não consiga passar por entre os pingos. As ervilhas, os alhos e as favas estão sorridentes, os tempos correm-lhes de feição. E, na mais pura candura, começam a exibir um verde claro, vivo, próprio de quem se quer criar. Sinto a energia positiva a invadir-me, rasgando o meu sorriso. Estava em défice, confesso.
Procuro uma fotografia para ilustrar o texto, mas a semana, amordaçante, não foi propícia à captura de novos olhares. Recorro ao ficheiro e detenho-me numa recente: a entrada da toca dum rastejante. Bem vistas as coisas, talvez os tempos estejam propícios a isso.
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domingo, 29 de janeiro de 2017

ENSAIOS DE RESPIRAR

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(Sandra Louçano: como tudo tem uma sequência, este vídeo foi colocado aqui para repor alguma justiça. Foi esta música que se ouviu, preferencialmente, no enquadramento do post anterior)
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As portas abrem-se, num eterno cerimonial, como se tudo acontecesse pela primeira vez. 
Um olhar, dez, mil, numa multiplicidade em constante deslumbramento. Tudo cativa, tudo parece perto e longe, a vontade de desbravar conjuga-se, em paralelo, com a de albergar. As coisas parecem ali, à mão, qual visão meteórica, criando a ilusão de que o tempo é domável, que a vida pode esperar por nós. 
Às tantas, após maratonas de inconscientes piruetas, regadas com risos de montanha russa, aceitamos a farda da normalidade, pregada por quem nos abraça, por quem nos quer bem. É preciso, incutem-nos, lutar pela zona de conforto.
Vestimos a farda, muitas vezes desconfortável, em conflito com a pele. Começamos, então, a questionar o que é a vida. Queremos agarrá-la, senti-la, descodificar-lhe o segredo, mas ela teima em esquivar-se, sorrindo e mofando, desafiando a persistência do mais abnegado. 
Há quem desista, resignado, há quem opte por não olhar, satisfeito com aquilo que tem. Deles, suprema descriminação, é feito o reino dos céus, apregoam os pastores. Mas, para aqueles para quem o sentido das coisas é tudo, pecar, não aceitando, é eterno desígnio. Descobriram, à custa de muito pó na pele, que a liberdade e a dignidade, mesmo que, aqui e ali, sorriam, não são concessão, são apenas apeadeiro de conquista permanente, sem fim à vista. Os afectos, energia imprescindível, são o verdadeiro sustentáculo de tão grande fé.
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sábado, 21 de janeiro de 2017

NO CALOR DO POUSIO

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Fotografia de AC
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A vida, em eterno jogo de escondidas, teima em acenar-nos, como que a lembrar que há sempre mais para lá daquilo que vemos, daquilo que conhecemos, daquilo que somos. 
Por vezes, aquando duma qualquer perda, não pareces convencida. E, sem te dares conta, alisas o terreno para a comoção se instalar. Eu sei, tu sabes: nada floresce, a não ser a sombra, com tal húmus.
Ontem, enquanto folheavas um livro, saí e sentei-me no alpendre. Estava frio, apesar do sol se esforçar por estender os seus braços, e ajeitei melhor a gola do casaco. Os gatos, por perto, indiferentes ao meu desagrado, teimavam em considerar como seus os terrenos recentemente plantados com ervilhas, favas e alhos, deixando rastos na terra mole. Levantei-me, esbracejando, qual proprietário de coisa nenhuma, e eles condescenderam em fazer o óbvio: levantaram-se, indolentemente, deslocando-se como reis e senhores do espaço, relativizando a importância do que quer que fosse. Acabei por sorrir.
O sol, entretanto, despedia-se num breve aceno, como que a relembrar evidências. Agradeci, mentalmente, e enchi o cesto da lenha para reforço da lareira. Faltava, apenas, escolher a música certa.
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domingo, 15 de janeiro de 2017

A ETERNA TRAVESSIA

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Nas noites frias, quando os elementos, em cerco ancestral, teimam em legar-nos sinais, confrontando-nos com os limites, há algo que nos habita que tende a simplificar, a abrir fissuras que conduzam ao mais profundo de nós. Mas há portais que, por maior que seja a vontade, apenas reagem ao calor dos afectos. 
Mesmo nas tardes quentes, quando a brisa parece apaziguar, em discreto afago, o esgrimir das pontas soltas, há sempre algo adormecido na sombra, em paciente espera, em conluio com o pousio. 
Por mais que se debata, por mais que se legisle, não há horas, não há dias. O tempo, velho conhecedor do desassossego, insinua-se fora das normas dos homens, escarnecendo deles, como que a recordar-lhes que, para entenderem a vida, muito terão que trilhar para lá da sua exígua zona de conforto.
A vida, para lá dos tratados convencionais, é um enorme rio em que qualquer um se poderá perder, ou encontrar, num qualquer sucedâneo de afluente.
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sábado, 7 de janeiro de 2017

GOLIAS MULTIFACETADO, DAVID RENOVADO

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Ira Moskowitz, David e Golias
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David hesitava, na antecâmara da sala, dando livre curso aos medos. Por fim, arremetendo, cegamente, contra as amarras que lhe toldavam a razão, abriu a porta e entrou. 
O burburinho da sala, plena de sorrisos de etiqueta, atingiu-o como um raio. Ainda pensou em dar meia volta, mas algo o impelia a ficar, a olhar em frente. Avançou, combatendo o medo, esforçando-se por parecer imune às circunstâncias. Ignorou dois ou três cães rosnadores, contornou quatro ou cinco víboras, sorriu perante o papagaio de serviço, igual a tantos outros.
Quando chegou junto da mesa principal, colocada, estrategicamente, para ser vista por todos, o vice-rei fez-lhe sinal para se abeirar. Saudou-o, respeitosamente, e aguardou que o anfitrião se manifestasse.
- Sabes, David, o mundo está a transfigurar-se, prestes a viver novos paradigmas.
David ouvia, atento, esquecendo tudo o que o constrangia. Sentia que as palavras, prestes a brotar, continham algo de superlativo, fosse qual fosse o ângulo de análise. O vice-rei continuou:
- O mundo, tal como ele se nos apresenta, é como uma barca à deriva, onde todos se querem abrigar, mas poucos têm lugar. Levando esta ideia à letra, o rei, recorrendo às mais modernas tecnologias, mandou construir uma nave, à qual apenas terá acesso o que de melhor fervilha na nossa espécie em áreas essenciais: físicos, químicos, filósofos, médicos, antropólogos, agrónomos, biólogos, engenheiros, professores... 
O vice-rei fez uma pequena pausa, deixando que as palavras produzissem o seu efeito. Depois, fazendo sinal a David para se aproximar mais, segredou-lhe, quase em sussurro:
- Para além dos políticos certos, é claro - condescendeu o anfitrião, sorrindo. E continuou:
- O rei, ciente da importância desta empreitada, encarregou-me de seleccionar algumas pessoas que complementassem o saber de cada especialista. Quando alguém lhe levantou a questão das fissuras provocadas pela insatisfação da maré de candidatos, o teu nome, David, surgiu com toda a naturalidade. A nave, para que saibas, chama-se Golias. 
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O NATAL DO TIAGO

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Paul Gauguin, La Veille de Noel
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Começaram a chegar, bem cedo, acomodando-se na sala o melhor que podiam. Todos tinham recebido o recado, sem necessidade de trompetas. Uns pelo vendedor de pão, que fazia o circuito pela região de dois em dois dias, outros pelo carteiro, visitante semanal, outros por um qualquer compadre que se tinha ido abastecer à vila, com passagem obrigatória pelo Casal da Pena, residência do João Profeta. Dos que estavam mais longe, em Lisboa e no Porto, se encarregaram os progenitores, que o respeito pela proveniência a isso obrigava. A mensagem era simples: quinta-feira, dia da Sra. da Conceição, todos em minha casa. E o todos abarcava filhos e filhas, genros e noras, netos e netas.
Quando a casa ficou composta, com plena ocupação de bancos, cadeiras e o colo das jovens mães, o João Profeta entrou na sala. Caminhava devagar, como que a impor a sua presença, alicerçada em alta estatura, costas direitas e um olhar que impunha respeito, forjado muito para lá de vãs cumplicidades. Olhou em volta, percorrendo os olhos dos circundantes, remirou-os e, finalmente, soltou um sorriso, prenúncio das primeiras palavras.
- É com muito agrado que vos acolho em minha casa. Esta família sempre esteve unida, por laços de sangue, mas chegou a altura de lhe darmos outro significado.
A audiência ouvia, expectante, sabendo que daquela boca nunca saíam palavras ocas. João Profeta virou-se, devagar, até se enquadrar na gravidez de Lídia, mulher do seu neto João. Estendendo o braço na sua direcção, continuou:
- Esta mulher está prestes a deparar-se com a  maternidade. Dentro dela germina uma nova vida, prestes a brotar, e toda a gente, à sua volta, irá sentir a graça desse natal.
A assembleia não tugia nem mugia. Os filhos, elo transmissor da forma de estar de pai para netos, sabiam bem que, daquela fonte, apenas jorravam palavras com significado.
- Este ano, se nada afrontar esta vontade, vamos recrear o Natal em minha casa. Já falei com o Dr. Ventura, médico da Lídia, que me disse que, quanto ao seu estado, tudo está a decorrer de forma natural, e que estava disposto, desde que tivesse as condições mínimas, a estar presente na hora do parto. Aqui.
Ouviu-se um burburinho na sala. A Lídia e o João, contudo, mantinham-se tranquilos. João Profeta, entretanto, prosseguiu:
- Também falei, de coração nas mãos, com a Lídia e o João, que me ouviram e entenderam. Assim sendo, daqui a duas semanas quero-os todos aqui, com vontade de estar e partilhar. A organização da estadia deixo-a por conta dos meus filhos, que sabem bem o que hão-de fazer.
Os dias passaram. A casa do João Profeta começou a ganhar um movimento inusual, com entradas e saídas pautadas pelo uso das ferramentas. Reparou-se parte do soalho, reviu-se a instalação eléctrica, abasteceu-se a despensa, cortou-se lenha para encher o resguardo até ao cimo. O médico, entretanto, passou pela casa para escolher a divisão mais adequada. Ficou-se pelo quarto maior, onde acomodou compressas, agulhas, seringas, lâminas, xylocaína, povidine tópico, gazes, uma sonda. A cozinha, ampla, levou uma volta de alto a baixo, com tachos e panelas a confrontarem-se com uma barrela como há muito não viam.
A hora aproximava-se. Na véspera do previsto começaram a chegar filhos e netos, instalando-se em tudo o que era divisão. Abraçaram-se, trocaram impressões. De seguida, não fosse o progenitor espicaçá-los, despertaram colchões, manusearem lençóis e cobertores, puseram a conversa em dia. O João Profeta, omnipresente, evitava falar, apenas impunha a sua presença. E só quando a Lídia e o João chegaram é que lhe ouviram a voz, quase sempre dirigida ao elemento feminino: vem para aqui, senta-te ali, descansa, o que é que queres comer. O João, compreensivo, apenas sorria.
À noite comeu-se o tradicional: bacalhau cozido com couves e batatas, regados com o vinho da produção do João Profeta, a que se seguiu um arroz doce e um pudim de ovos de estalo. A conversa insinuou-se, de forma fácil, os afectos estavam demasiado presentes. O João Profeta sorria, satisfeito, como que de pazes feitas com a vida, enquanto as mulheres, na sua sabedoria, iam fritando as filhós, enquanto entoavam cânticos.
Às tantas, já o calendário transbordava para lá da meia-noite, ouviu-se um choro a irromper na vida de cada um: acabara de nascer o Tiago, símbolo de tudo o que ali os trouxera. O Dr. Ventura, refém da sua palavra, afastou as portas do quarto grande para mostrar, a toda a família, o símbolo daquele encontro: a união, a paz, a entreajuda. Os copos ergueram-se, em uníssono, deixando as filhós para segundo plano. O velho João Profeta, com voz embargada, lá acabou por dizer:
- Que o natal do Tiago seja sempre referência para todos nós. Saúde!
Dizem as pessoas que, nessa noite, a Serra da Gardunha brilhou como nunca dantes, vá lá saber-se o porquê.
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Um Natal pleno de significado para todos os meus amigos e leitores!
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sábado, 17 de dezembro de 2016

PINHAL

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Fotografia de AC
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Caminhava, inspirando o ar dos pinheiros, mastros de velhos veleiros insinuados pela leve bruma, quando te pressenti para lá da curva do castanheiro. Sim, eu sei que não eras tu, era apenas a vontade de te sentir, ali, longe das amarras, povoando o pinhal de novos encantamentos.
Ontem, quando te vi para lá dos pinheiros, estuguei o passo, quase sem me dar conta, dando lastro à fantasia, não fosse ela gorar-se pela lentidão dos meus passos.
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