sábado, 3 de dezembro de 2016

PARA LÁ DO TORPOR, RESPINGOS DE COR

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AC, Gardunha
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Subíamos a serra, confiantes, em busca de sinais, de pequenas telas metamorfoseadas de vida.
Para trás ficavam as amarras, a cada dia mais fortes, na sua, mais que estudada, subtil forma de se insinuarem. Via-te desperta, atenta a cada passo, mergulhando, cada vez mais, no irrecusável convite da paisagem. A amálgama de cores preenchia-te, sem dramas, dando forma à tua ânsia de respirar, à tua necessidade de construir. Mantinhas-te tranquila, transpirando serenidade, o sorriso que esboçavas dizia-me que a libertação, embora a prazo, ganhara asas.
Sentíamo-nos bem. Continuávamos a subir, destilando a harmonia da sã convivência entre cerejeiras, carvalhos e castanheiros. Parávamos, aqui e ali, dando corpo ao prazer das pausas, para acentuar impressões e visões de renovadas arquitecturas. Só nos detíamos quando começávamos a divisar os limites da tela. 
Invertíamos a marcha. Sabias, como eu, que o cerco era cada vez mais estreito, que a Roma, à míngua de pão, sobrava-lhe cada vez mais circo. Para além dos devaneios, em busca de novas galáxias, restava-nos a cumplicidade, a dignidade na convicção do caminho a percorrer.
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sábado, 26 de novembro de 2016

OUSAR

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AC, Medronho
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A chuva, persistente, não se cansa de encharcar os caminhos, como que a semear a passagem para os mais persistentes. 
Para lá do abrigo, em permanente desafio, insinuam-se preciosidades, adequadas ao tempo, acenando, em discretos sinais, com o muito que existe para lá do convencional. E eu, humilde viajante da vida, sinto-me grato pelo que ouso, pela recompensa do que sinto.
Encharcam-se os caminhos, mas a vida, para quem ousa, continua a aquecer a alma.
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AC, Medronhos
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sábado, 19 de novembro de 2016

A PENA, APENAS...

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Há uma pena, para lá das penas, que recusa viver num mundo de pena.
Há uma pena, para lá das penas, que se agita, febril, enquanto, num grito surdo, dá vida a uma folha de papel.
Há uma pena que, apesar das penas, esbraceja, luta, grita, enquanto se desnuda.
Há uma pena, para lá das penas, que sente que vale a pena.
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Ontem, quarta-feira, a Luiza presenteou-me, a propósito deste texto, com o desenho que o encima. Gratíssimo, amiga! (24/11/2016)
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sábado, 12 de novembro de 2016

A LENTA VALSA DAS MEMÓRIAS

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Fotografia de AC
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Ontem, quando te reencontrei, após efusivo cumprimento, não resististe em apelar às memórias. Pensavas, essencialmente, nas tuas, como se o mundo girasse em torno da tua época de esplendor. Ouvi-te, atenciosamente, acompanhei-te na reconstrução de tempos áureos, mergulhei nos cenários em que tu, menina e moça, eras motivo de romaria. Encantavas, filtravas olhares, imaginavas tapeçarias forjadas pelos poemas que te sussurravam.
Ontem, quando me despedi de ti, houve algo que viajou para lá da tapeçaria desbotada. Sim, eu sei que tu dizes que sabes, mas às vezes esqueces-te: a vida, na sua essência, vai muito para lá do esplendor. A vida, no seu âmago, requer, acima de tudo, harmonia.
Amanhã, quando te reencontrar, gostava que esquecesses, por momentos, o receituário da tua subsistência, encalhado entre a terra e o céu, e me falasses, por entre sorrisos, das músicas de roda da tua meninice, em eterno canto de embalar. Se te enganares na melodia, recomeça. Vais ver que tudo acaba bem.
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sábado, 5 de novembro de 2016

ÀS VEZES

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Fotografia de AC
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Às vezes, quando ouso sair dos caminhos, sem roupagem catalogada, novos mapas parecem desenhar-se, como se houvesse outro mundo para lá da cortina.
A constância, porém, apesar de muito cortejada, não é menina casadoira. Há horas em que, por mais que se porfie, não se consegue despir o fato-macaco da existência. Mas quando a alma, insatisfeita nave-mãe, ilude as manchas de óleo, irisando-as, nada há que detenha novos olhares, novas arquitecturas, novas reconstruções.
Às vezes, quando ouso sair dos caminhos, a poesia parece tatuada na minha pele.
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sábado, 29 de outubro de 2016

AQUI E ALI, O PERTO E O LONGE

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Fotografia de AC
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Conheço-te, à distância, pelos pequenos sinais que vais deixando, de forma cautelosa, sobre aquilo que cogitas da vida. É mais fácil, toda a colmeia o sabe, libertares-te quando, olhando em volta, colocas o dedo em riste, apontando. Mas, por comunhão, todos intuem que sentes mais dificuldade quando, em exercício inevitável, constante, tens que olhar para dentro de ti, encarar possíveis fragilidades, renegando, quase por instinto, indícios que possam conduzir à tua nudez. Dói, dói sempre.
Com a saga dos medos por enfrentar, alimentada pela imaginação, o conceito pode parecer-te arrepiante, tenebroso, mas, podes crer, a nudez é o que de mais puro temos, ponto de partida para, soltos de amarras, lobrigarmos novo patamar. Podes barafustar, contestar, mas apenas te arranhas a ti próprio, renovando o sofrimento, enquanto alimentas, em doses generosas, o labirinto que habita em ti, embora, quase sem te dares conta, vás deixando uma flor aqui, um abraço ali. Talvez, quem sabe, porque guardaste, no mais fundo de ti, o melhor das tuas memórias.
Quando, sempre à distância - estamos todos perto, no mesmo infortúnio, estamos todos longe, no mesmo desígnio - te sinto esbracejar, debater, a tentar romper a névoa, há um calorzinho agradável que, por mais ténue, mais subtil, me aconchega. Ainda não te rendeste, a vida, por mais madrasta, continua a ser um aliciante desafio.
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

PAISAGEM

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Fotografia de AC
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A paisagem, com o vento ausente e a parca luz duma réstia de sol, quase parecia parada. Até o ténue ruído do tractor, à distância, a preparar, provavelmente, a terra para a sementeira de trigo, parecia fazer parte da quietude. Mais próximo, em cadência lenta, um cão emitia um ou outro latido, um quase exercício de desfastio perante a calma instalada, enquanto um rebanho, em serena comunhão com as ervas, saciava, tranquilamente, o natural apetite.
Mais à frente, acedendo ao convite do declive, porta aberta para o mais profundo do vale, as águas do rio,  fonte de toda a vida circundante, acentuavam o sentido de aparente apatia. Tudo parecia parado, embalado no adorno de ancestrais memórias. Apenas um bando de pintarroxos, estranhando a intrusão, ousou romper  o véu da calma instalada, esvoaçando para lugar mais seguro.
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sábado, 22 de outubro de 2016

OLHARES, AVULSOS, SOBRE A COMPLEXIDADE DAS COISAS SIMPLES

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Fotografia de AC
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Nem sempre estás, a vida, aos teus olhos, é demasiado exigente. Quando, por vezes, correspondes ao toque da campainha, a configuração do horizonte já tudo transfigurou. Sentes, como eu sinto, que tudo o que nos rodeia, para seguir em frente, não espera por ninguém. Por isso te maravilhas, em tempo de pausa, no observar das plantas, por isso te espantas, em aparente sobressalto, quando elas invadem o que, negligentemente, parecia teu.
Sentamo-nos. O ilusório sentido de posse vem à baila, em subtis acordes minimais, o exemplo das plantas é quadro omnipresente. Olhamos mais do que falamos, as imagens falam por si. O sorriso, à laia de apaziguamento, acaba sempre por brotar.
Levantamo-nos, contornamos a casa e, por momentos, detemo-nos na avalanche de folhas, qual tapete multicolor, que vai adornando o caminho. Aqui e ali, contudo, a onda verde, agora quase adormecida, não trava a sua marcha. Ambos sentimos, ambos percebemos, as palavras nada acrescentam. Sabes, como eu sei, que o lugar de cada um, no mundo, não é traçado a régua e esquadro, requer percepções complexas que, no final, induzem à simplicidade. 
Quando, de novo, nos sentamos, acabas por surpreender. Hoje não embarcas em jogos de palavras, limitas-te, após pausa apaziguadora, a invocar a memória do teu avô que, sentado na sua cadeira de patriarca, em pose de estudada gravidade, nunca se cansava de dizer que a vida era simples, nós é que a complicávamos.
Sorrimos, trocamos aparentes vulgaridades, chegamos mesmo a gargalhar. O teu avô, se nos visse, confortavelmente sentado na sua cadeira, não deixaria de sorrir.
Amanhã, quando partires, de novo, para a azáfama da grande colmeia, não te esqueças de levar contigo a serena linguagem das plantas.
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

ESBOÇO, MAL AMANHADO, DA CANÇÃO DA PERSISTÊNCIA

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Fotografia de AC
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Refulgem os dias de outono, como que dando o melhor de si no anúncio da demanda perdida, mas tu persistes. Alcançaste, com o teu esforço, o patamar dos que querem perdurar, mas, chegado aqui, continuas a ter dúvidas, não sabes bem o que fazer. Ouves, no soprar dos ventos ressequidos, que as memórias se perpetuam na dimensão do percurso feito, nos gestos que motivam outras visões, outras atitudes, mas o teu instinto não adere, queres ir mais para lá do fado das ideias feitas. Continuas insatisfeito, o que conseguiste sabe-te a pouco. Continua, num olhar cada vez mais selectivo, a seduzir-te a ideia de chegar além, de desmitificar o que está ali, de abençoar o que está aqui.
Estás em contra-mão, sabe-lo bem, mas há muito que, para ti, isso deixou de ser problema. Continuas a querer perceber, antes de mais, continuas a querer ser, antes de tudo. Contigo, quando voares, não haverá fanfarras, contigo apenas se sentirão, ao de leve, os acordes da canção da vida.
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sábado, 15 de outubro de 2016

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA BELA ADORMECIDA

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AC, Mulher adormecida
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Tinha adormecido, resignada, nos primórdios, não sabia bem em prol de quê. Lembrava-se, isso sim, do rumor do tempo que, apesar de cadenciado, se comprazia a confundir os outros, deixando, ao de leve, aqui e ali, pequenos sinais, quantas vezes maquilhados de travessuras, accionando a tecla da importância de cada um. E eles, ufanos pela escolha, apressavam-se a elaborar tratados, cultos, de cariz determinante, como se fossem os eleitos para a preservação das coordenadas do verdadeiro cenário.
Aprendera, com o tempo, que tudo se conjuga no infinito, a pressa apenas fazia sentido como antónimo da vida. Por vezes sentia-se tentada, é verdade, em deixar uma dica aqui, outra ali, mas até isso aprendera a controlar. Facilitar, assim lhe segredava o tempo, nada augurava de bom.
Continuava a dormir, mas de forma cada vez mais solta, mais apaziguada. Sabia, como que tatuagem em sentido crescente, cada vez mais entranhada na pele, que há rumos que não dependem só de nós. Cabe aos outros, enfrentando os medos, tecer a melhor forma de os pintar, de os esculpir, de os movimentar.
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