sábado, 20 de agosto de 2016

CRÓNICA ESTIVAL - O TONINHO

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Todos os anos, pelo estio, o pequeno burgo é tomado de assalto. Centenas de pessoas, aproveitando a pausa do chicote, apontam a bússola naquela direcção, em busca de algo que as renove, que as faça sentir que a vida não é mera ilusão, que vale mesmo a pena. Os residentes, resignados à invasão, acabam por tentar tirar partido do fenómeno: uns alugam casas; os poucos pescadores, amarrados a uma prática ancestral, vendem peixe na praia; outros povoam as artérias para aliciar os veraneantes a comprar conquilha, acabadinha de apanhar; da serra algarvia, a dois passos, chegam vendedores de figos, de tomates, de melão e de outras novidades do campo...
O Toninho, já entradote na idade, também gosta de povoar as ruas com a sua "loja". Vendedor de circunstância, o que o move não é o lucro. Gosta de conviver, de olhar para as pessoas, de sentir o calor humano. Baixo, magro, de boné na cabeça, ostenta um bigode farfalhudo que parece complemento do enorme nariz, que se esbate perante o calor humano que emana dos olhos. Não, o Toninho não está ali unicamente na mira de mais uns euritos para beber um copo, até porque aquilo que tenta vender pouco apela a quem passa, ele quer, essencialmente, que reparem nele, que lhe acenem, que lhe falem.
O Toninho tem uma bicicleta, com que se desloca, regularmente, para umas surtidas ao campo, o seu mercado abastecedor. Umas vezes, se tiver sorte e o dono das figueiras não rondar por ali, consegue uns figos, que depois ostenta numa cesta de verga, com dois passarinhos de plástico pendurados no cimo, virados em sentido oposto. 
- Esses passarinhos cantam bem, Toninho!
- É verdade, e cada um canta para seu lado!
E o Toninho, satisfeito, solta uma gargalhada. A "loja" é o seu passaporte para entrar no mundo das pessoas, carta de alforria das limitações que o amordaçam no resto do ano. 
Quando o dono da loja não consegue figos da figueira, vira-se para as alfarrobeiras ou para os cactos. E, na sua montra, apregoa, com voz forte e colocada, os figos-da-índia: 
- Olha a loja do Toninho, pode provar que não paga nada!
Quando os frutos são total impossibilidade, o nosso vendedor não desanima. Pega num monte de conchas, de diversos tamanhos, e coloca-as por cima de uma caixa de fruta virada ao contrário. No meio, para harmonizar a banca, uma pequena jarra com duas flores de plástico. É quanto lhe basta para atrair a atenção das crianças, maravilhadas, que trazem sempre os adultos pela mão.
O Toninho, enfeitado, eternamente, num genuíno sorriso, apenas quer que reparem nele, que lhe retribuam o gesto. É quanto lhe basta.
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sábado, 30 de julho de 2016

EPIFANIA

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Fotografia de AC
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A luz esgueirava-se, por entre as árvores, cedendo o palco às cigarras, quando tu chegaste, devagar, do lado do canteiro das alfazemas. O brilho dos teus olhos, destilando aromas de verão, era convite ao mergulho, e eu, inebriado, não sabia se era rio, se era lago ou se era mar...
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sábado, 23 de julho de 2016

(DES)NORTE

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Por vezes, nas tuas deambulações, pareces querer redimensionar os muros, entregue aos teus próprios desafios. Tento encontrar-te, sentir-te, embora saiba que, nessas alturas, só tu possas definir o teu fio condutor, algures entre a luz e a sombra. Ainda, e sempre, forjado em equilíbrios, é isso que verdadeiramente te define.
Num universo tão vasto, pleno de cenários, de oportunidades, insistimos, dando voz ao medo, em querer reduzi-lo à nossa dimensão. De tanto querer medir as coisas, numa escala que não entendemos, feita à medida da nossa ignorância, quase deixámos de acreditar. Abrimos as portas aos vendilhões do templo.
Prosseguimos a nossa peregrinação, plena de pontas soltas, em busca de defesas e alguma humildade. Tarefa dura, desafiadora, num mundo em que a intolerância, eterna aliada das verdades supremas, investiu, com grosso orçamento, no ministério das fronteiras. E nós, caminhando por veredas, quase sempre à bolina, sem saber do norte, tentamos, por entre as folgas, manter viva a lucidez, aliada da dignidade e da esperança, cada vez mais cambaleantes: uma pista aqui, um gesto ali, sementes dum mundo por que todos ansiamos, mas que teima em dar sinais contrários. 
Talvez, um dia, consigamos forjar o nosso destino. Talvez, quem sabe, consigamos derrubar os muros interiores, verdadeiro sustentáculo de outros muros. A vida ganhará, por certo, uma outra dimensão.
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sábado, 16 de julho de 2016

POSTAL MERIDIONAL

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Sergei Aparin, Via del Pellegrino
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Galgadas as últimas curvas, a urbe desenha-se, inesperadamente, em cores delicadas, apelativas, numa pequena baía pintada num azul mediterrânico.
Durante o dia não se vê vivalma, mas ao entardecer, prenúncio de todas as coisas, o pátio das casas, antecâmara do palco de trocas e baldrocas, começa a ganhar vida. 
Nas ruas, cenário de aprendizagens geométricas, o sol faz vénia à sombra,  dando início ao desfile, enfeitado de subtilezas, em que se enaltece, mais que tudo, o gesto e o olhar, jogo de múltiplas promessas, quase todas vãs. Mas doces. Os aromas, moldados em partidas e chegadas, tendem em fixar-se em salsa e tomilho, impregnados, aqui e ali, de alecrim, mas é impossível ignorar, vinda dos lados do porto, a insinuação da canela. Os peregrinos do destino, embriagados pela envolvência do cenário, esquecem, por momentos, a delegação nos outros das suas atribuições.
Num qualquer pátio, em contra-mão, dedilhando uma guitarra, alguém teima em dissecar o caminho dos outros. Talvez, quem sabe, para reinventar-se a si próprio.
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sábado, 9 de julho de 2016

DA ETERNA VONTADE EM EFABULAR VERDADES

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Fotografia de Ana Freire, do blogue Art and kits
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A vida, mentora de todas as artes, eterna senhora sarcástica, que se alimenta, no seu status, da vontade de quem ousa tentar entendê-la, é exercício diário, num mundo em que, cada vez mais, pouco tempo há para essa abertura. A senhora continua a sorrir, mesmo sabendo que o défice é maior que a mais negra previsão. Ela sabe bem das virtudes da esperança, capazes de iludir qualquer vidente.
Quando te questionam, em aparente leveza, dizes que não, não tens tempo a perder. Abanas a cabeça porque continuas, para lá de teres que alimentar uma família, a julgar-te único, capaz de efabular múltiplas teorias. Mas, pelo menos quando te deitas, pensa bem: quando há algo em que acreditas, em que derramas o teu sangue, se necessário, isso só te vincula a ti? Mas... e os outros? És tu que comandas a sua vontade? És tu que controlas as suas emoções? És tu que delineias os seus anseios? A vida é bem mais do que isso, acredita, embora estejas demasiado ocupado - são as metas a alcançar, não são? - para pensar nisso. A maior parte das vezes, como consequência do número que te saiu na rifa, um beco sem saída. Então, nesse caso, que fazer?, questionas.
Eu não sei, deduzo que tu não saibas, mas gostaria muito de sentir que estás interessado em tentar saber. Não do teu quintal, que cada um sabe do seu, mas do quintal de todos nós.
Sabes, vendedores de doutrinas há muitos, cada um com a sua verdade. Contudo, para lá da sua veemência, há algo transversal que nos poderá unir. Basta acreditarmos.
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sábado, 2 de julho de 2016

AQUA LUMINAE

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Música de C. N. Gil, do blogue OQMDNT
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Quando te pressinto, quando te olho, levando-me para lá de qualquer fronteira, há uma intenção, em cada gesto, que transcende as cores com que nos trajaram, com que nos querem, continuamente, continuar a adornar.
As pontas soltas, convocadas pelo súbito despertar, esforçam-se por apreender os sinais, numa dança coreografada, toda ela, em tons serenos. E é nesta aparente tranquilidade, portal mesclado de subtis apelos, que a parte luminosa da alma se distende, com vontade de irromper, de abraçar. 
Ponta a ponta, para lá da efemeridade do momento, tudo se parece soltar. É a hora dos possíveis milagres.
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sábado, 25 de junho de 2016

ESTRADAS POUCAS, INSATISFAÇÕES MIL

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AC, Estrada
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há um segredo por desvendar, em cada curva
há um corpo por desnudar, em cada enlace
há uma inquietude por cuidar, por mais que turva
há uma estrada por trilhar, por mais que abrace.
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sábado, 18 de junho de 2016

(DES)FADO

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AC, Nuvem-pássaro
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Olhamos, sentimos, tentamos compreender. E, por todo o lado, correspondendo à irracionalidade do medo, irrompem fronteiras, marca simbólica do que nos separa, deixando, cada vez mais, para o fim da fila, aquilo que nos poderia unir. 
Os sonhos são matéria quase profana, em detrimento das bandeiras, os profetas do apocalipse continuam a construir igrejas, com fácil recrutamento de diáconos, os muros rivalizam com as ervas daninhas. Triste fado, o da gente adormecida, apenas reagindo a instintos, presa fácil de qualquer gavião. Fado que se faz canção, lamento que, apenas consistente, aquando de copo na mão.
Há um mundo que não quer fado, há um mundo por reconstruir. Tanto de mim que quer ficar, tanto de mim que quer partir.
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sábado, 11 de junho de 2016

JUNHO

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AC, Coimbra, margem esquerda do Mondego
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Quando Junho, exuberante de vida, descia do indomável corcel, as varandas, até aí enfeitadas de promessas, vestiam-se de certezas. Era a hora dos grilos e das cigarras, em harmonia com os pássaros, entoarem a sua sinfonia. Era a hora de tu chegares.
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sábado, 4 de junho de 2016

O ILUSIONISTA

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Hieronymus Bosch, O Ilusionista
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As vestes, bem engomadas, eram complemento de gestos precisos, elegantes, que prendiam qualquer olhar. Na rua, num gabinete, ou em qualquer outro lugar onde palpitasse coração de gente. Aprendera que as pessoas, mesmo as supostamente mais sábias e poderosas, tinham sempre uma fenda, por mais discreta, à espera de algo que as surpreendesse, que as maravilhasse.
O homem, cata-vento, em roda viva,  da sua própria ignorância, bem tenta camuflar a sua essência, mas, qual músculo involuntário, há sempre algo revelador das suas forças e fraquezas, da sua constante instabilidade. Quase sem se dar conta, é essa fragilidade que lhe mantém a chama viva para novos passos, novos olhares, novas atitudes. No fundo, depois de pisar, derrubar e reconstruir as pedras do caminho, o homem, na sua individualidade, mais não almeja que a redenção.
Alfredo pertencia a uma estirpe que se perdia na bruma dos tempos. Conhecedor das grandezas e misérias da espécie humana, mais não fazia que explorar a imperfeição de fortes e fracos, de ricos e pobres, de avarentos e filantropos, de cépticos e sonhadores. Em suma, alimentava-se da fraqueza dos outros, da capacidade em saber explorar a tal fenda, por onde, embora negados, de viva voz, até os milagres eram permitidos, quantas vezes desejados. Era por ali, no que de mais puro e ingénuo tinha o homem, que ele costumava investir.
Também Alfredo, contudo, tinha as suas fragilidades. E, à medida que o cheiro da fraqueza humana o ia inundando, de tanto a espremer, ia desenhando, cada vez com maior minúcia, cenários para a sua possível redenção. Talvez, quem sabe, conseguisse almejar a sua façanha mais gloriosa: iludir-se a si próprio.
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