sábado, 7 de dezembro de 2013

REBUSCAR

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Pintura de Margarida Cepêda
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Se há coisas que não podemos escolher, uma delas é a competência genética com que chegamos ao mundo.
Esse aspecto, contudo, é apenas o aparente início da grande viagem, matéria visível da nossa construção. 
A família pode envolver-nos, ou não, numa capa protectora, zelando para que os nossos primeiros olhares sobre a vida não sejam sujeitos a grandes intempéries, e a forma como (não) sorrimos é disso uma evidência. Mas há algo para lá do óbvio. A matéria de que somos feitos, as energias que por aí cirandam, as influências astrais.., isso dificilmente é perceptível ao nosso rudimentar entendimento. Tentamos perceber tacteando, muitas vezes pisando o que poderá, ou não, ser importante.
Por norma, só mais tarde nos apercebemos de que passámos ao lado de rastos determinantes, pois, em matéria de conhecimento, a cegueira ainda é a nossa condição. E, como qualquer pessoa que (se) procura, sujeitos à intermitência dos caminhos.
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Às vezes
Quando o cinzento se perpetua
Ganha lastro
A procura da luz
A claridade
Dos dias prometidos.
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No calcorrear da velha calçada
Um letreiro velho
Mas sempre novo
Sinaliza
Nas subtilezas do tempo
O graal de todas as demandas
Insinua-se
Um vislumbre de promessa
A centelha do golpe de asa
Mas os olhos carecem de rumo
Porque toldados
Pela visão de mil profetas
Às vezes
Com a luz na mão
Apenas olhamos
Para o mistério da sombra.
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sábado, 30 de novembro de 2013

A PORTA DA PARTILHA

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Margarida Cepêda, A 1.ª porta
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O barco navega nas aparências, transpondo a fronteira do tempo em que a função das várias variáveis é manipulada no filtro duma só variável. Para trás ficou o tempo dos cantos ao amanhã, como se tudo estivesse logo ali. Não estava, não está.
Tentamos determinar a origem dos ventos, o que os faz mover, mas há sempre algo que não acompanha a sua sagacidade: umas vezes ilude-nos o canto da sereia, que nos acomoda, noutras deparamos com a nossa infimidade, que nos reformula. Do que permitimos parece haver solução, baseada em equilíbrio de forças, do que não sabemos apenas nos resta ousar. Se a primeira é mundana, à tona d'água, a segunda mexe com a nossa caixa negra. E isso assusta. Ousar, no mínimo, implica ficar com a criança nos braços, o que, assente a poeira, é sempre o início de algo: de nos descobrirmos, de nos desafiarmos. Contudo, e apesar das evidências, teimamos em acomodar o medo, em negar canteiros às flores.
Aqui e ali, apesar do uivo dos lobos, ainda há um recanto na lareira para quem chega. A horta, enquanto sustentável, é convicta fonte de partilha. Não para ficar, que a cumplicidade quer-se revigorante ponto de partida. Seja lá o que isso for.
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sábado, 23 de novembro de 2013

APOLOGIA DAS LOAS ÀS MANHÃS DE SÁBADO

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Hélio Cunha, A Fonte da Juventude
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Um levantar tranquilo, em lentos passos, o relógio no mais fundo do baú.
O café bem quente, o olhar nas tonalidades da serra, através da vidraça, mescla de verdes, dourados e castanhos de pinheiros, carvalhos, cerejeiras e castanheiros. A alma começa a encher.
A horta recebe a primeira visita. Não há lagartas à vista, couves e repolhos prosseguem o seu lento crescimento, lado a lado com alfaces e morangueiros.
Mais além, em zona não cultivada, a lenha, cortada no início do Verão e espalhada pelo chão, espera por cuidados. Apela-se à vontade, às luvas e ao carrinho de mão. A pilha de lenha, no abrigo, vai crescendo. Nada mais conta, apenas a satisfação de fazer o que deve ser feito.
No final da manhã, vestidas por completo as vestes da harmonia, escolhe-se a música certa, chave mestra dos mais íntimos recantos, acende-se a lareira e arquitecta-se o almoço.
O eco da diatribe dos homens, hoje, fica à entrada do portão. Num mundo em constante mudança, as manhãs de sábado, em contacto com a natureza, continuam a entoar loas à vida.
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sábado, 16 de novembro de 2013

INFINITOS VOOS, ETERNA SOLIDÃO

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Pintura de Margarida Cepêda
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Sinto a tua inquietação, a ânsia de domares as sombras que te perturbam os dias.
Mal desponta a aurora, pegas no melhor de ti e vais ao encontro do marulhar das ondas, ritual primevo na convocação da essência apaziguadora. É a hora de te despires, de enfrentares a tua efemeridade. Quando, por fim, começas a entender o ritual das gaivotas, há sempre algo que te transcende, que as impele para longe. 
É grande a sede de infinito, perpetuação da tua inquietação, mas não te basta entender, tu queres o poder do voo. E, sem te dares conta, ficas cada vez mais só.
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sábado, 9 de novembro de 2013

OS NOVOS DEUSES DA LUA

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Hélio Cunha, A lua do caçador
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Queima-se a dignidade, semeia-se o infortúnio. Da colheita augura-se a fúria, o desespero, correrias de vai e vem entre pés descalços e botas cardadas.
No final, purga feita, apenas se cultivam marionetas. Os novos deuses não carecem de mais. 
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sábado, 2 de novembro de 2013

A ETERNA QUESTÃO DE OUSAR

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Hélio Cunha, Pescadores de pérolas
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Há homens que trazem o mundo nos olhos. Ouvem-se, ouvem o vizinho, ouvem as árvores, conjugando tudo no mesmo respirar.
Há homens que, sendo o que são, se ultrapassam. São seres que acreditam, que lutam, que tudo abarcam no infinito.
Há homens, por aí, que ousam ser o que são, forjam o seu destino na imensidão da sua alma. Só nós, eternos temerosos, permanecemos em contínua sonolência.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEQUENAS NOTAS, CLÁSSICOS EXCERTOS

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Hélio Cunha, Águia voando ao encontro da sua flecha
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Não estava preparado para a solidão da descoberta. Sucumbiu às lembranças, pausou, inverteu a rota.
Regressou, de sorriso ténue, de fartura apenas uma mala de desassossegos. Quando entrou, não precisou de falar, num abrigo há sempre alguém para lavar as feridas. 
Pouco mudou, a não ser o reforço do alimento. És importante, és especial, e surge a força para mais um dia, o alento para o dobrar da esquina.
Vestiu uma camisa lavada. Aconchegou-se, pintou novas telas, desesperou com a eterna tonalidade escorregadia.
Surgem novos impulsos. Voltar é sempre uma forma de partir, mas com mais penas nas asas. No fundo pouco mudou, o pouco é sempre muito. Até as penas caírem.
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terça-feira, 22 de outubro de 2013

POSTAL A PRETO E BRANCO

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A cidade ficou para trás, mas o seu pulsar chega longe, numa agonia estridente, mesclada em contradições submersas em labirintos de desespero. As sirenes uivam, o asfalto é o simulacro duma arena sem regras. A multidão, numa ressaca desesperada de flores pisadas, esbate o desejo de circo, apenas almeja as voltas do pão. A cabeça, a cada passo, baixa um pouco mais. É a dignidade que se vai.
No resguardo do jardim, o mundo a duas cores: num banco, próximo da estátua do poeta, o sem abrigo enrola um desbotado cobertor; mais além, sob a terna capa dos avós, a criança descobre o fascínio da bola a rolar.
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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A INDELÉVEL MARCA DE SER

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Hélio Cunha, Os Frutos Prateados da Lua
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O teu olhar, ávido de respostas, segrega alquimias únicas, forjadas em eternas dúvidas, e só tu pareces não dar conta.
Há um rasto de ti - discreto, muito discreto - a que não dás importância, mas que marca quem por ti passa. Pode ser um gesto, a forma de dizer não, o sorriso enfeitado com o teu jeito de olhar o mundo...
Só tu pareces não dar conta, mas enquanto caminhas, plena de dignidade, até os cardos se parecem engalanar com a sua melhor roupagem.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

SINFONIA

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Hélio Cunha, A Terra Inteira
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Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, descias, de mansinho, o caminho que ia dar ao ribeiro, enquanto semeavas o aroma das violetas.
Dizias-me, ao ouvido, que a tua respiração se calava para ouvir os meus passos, respondia-te que a minha pele respirava todas as letras do teu nome. E no brilho dos olhos acreditávamos, entre murmúrios comungávamos...
Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, era tempo de a ternura se soltar.
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