domingo, 9 de junho de 2013

RITUAL

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Hélio Cunha, Terra Mãe
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Todos os anos, depois das colheitas, os moradores do vale viviam o mesmo cerimonial. Juntavam-se na praça, à sombra das amoreiras, e expunham preocupações e anseios. Depois, de braço no ar, elegiam o que, entre eles, julgavam mais sabedor, mais capaz, para os conduzir por mais quatro estações.
O eleito, ao raiar do dia seguinte, era conduzido para o cume dum pequeno morro, onde assentava, desde há muito, uma casa circular, toda em xisto, com sete pequenas portas, direccionadas para a envolvência de sete colinas repletas de alfazema, alecrim e rosmaninho. Seria a sua moradia por um dia, sem água, sem víveres. Apenas lhe era permitido uma pequena túnica, herança dos ancestrais, que apelidavam de túnica dos humildes.
A casa era circular, dizia-se, para que os espíritos, bons ou maus, não se refugiassem nos cantos. O eleito ficaria sozinho, em diálogo interior, apenas sujeito aos sons e aos cheiros que transpusessem as sete portas. Comandar não era subjugar, o exercício do poder era coisa demasiado séria para ser deixada ao acaso. A brisa tudo trazia, a brisa tudo levava.
Nesse dia, sabedores da importância do ritual, ninguém trabalhava no vale. Mas todos, em uníssono, tocavam as suas flautas, em suave melodia, tentando aliar-se à subtil mensagem dos elementos.
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sábado, 1 de junho de 2013

(DES)TECER

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Margarida Cepêda, As nossas teias
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Não sabia como, mas aprendera a nadar naquele lago de lama.
Passava por ilhas, muitas ilhas, todas cercadas de muros, a bradar a sua independência. Evitou-as. Continuou a nadar, contornando as jangadas carcomidas, vestígios de adormecidas ousadias, até chegar à margem pedregosa.
Sentou-se, voltado para aquele mundo em convulsão. Enquanto recobrava o fôlego, quase sem se dar conta, começou a pensar em pontes. Eram necessárias muitas, mas o seu número era concreto. Bastava os muros desaparecerem.
Subiu, a custo, a íngreme escadaria, até atingir o exterior. Após curta pausa, começou a contornar a muralha de cor indefinida, procurando uma brecha. A ânsia pouco deixava ver, as paredes pareciam inexpugnáveis.
Parou. Concentrou-se na brisa, na imperceptível ondulação dos musgos, na indecifrável linguagem das pedras, até se sentir o que realmente era: um minúsculo ser sem bússola, com uma pequena sacola de memórias a tiracolo.
Voltou, a pouco e pouco, as costas à muralha. À sua frente, contornando a erupção do fraguedo, uma floresta com toda a espécie de árvores prolongava-se até à linha do horizonte. Abriu os braços, encheu o peito de ar e sentiu o irresistível apelo. 
Enquanto caminhava, lentamente, por entre os arbustos, imbuindo-se de aromas e cores, intuiu que as andrajosas vestes iam ficando, a pouco e pouco, para trás. E quando, finalmente, se sentiu nu, um enorme sorriso lhe começou a adornar o rosto.
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domingo, 26 de maio de 2013

DIÁLOGO EM ESQUINA CONVERGENTE

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- Vejo-te contente, animado. Gosto de te ver assim.
- Ontem testemunhei algo que me reconfortou, que confirmou o que penso sobre o género humano. Por mais que alguém pise, que alguém destrua, há sempre um outro ao lado a tentar construir, a tentar dar lastro aos sonhos. E é essa capacidade que alimenta, que faz caminhar.
- Muitas vezes às cegas, não?
- É verdade que muitas coisas se fazem a tactear, mas que assentam numa vontade indómita de nunca desistir, nunca se conformar, como se a função primária de respirar alastrasse a todos os sentidos.
- Mas é preciso questionar, não achas?
- Claro. É sempre necessário questionar para entender, só assim que se forjam as verdadeiras crenças. De resto, os anseios são os de sempre. As asas, para voar, precisam estar em constante agitação.
- Repara, olha em volta. Há muita gente que apenas quer sobreviver, encontrar ânimo para o dia seguinte.
- Esse é um amplo mar de navegação, um enorme desafio à espécie. Quem navega demasiado à vista tem que começar a ousar mais, a descobrir-se, a exigir novos sinais. Assim, da forma como se instalaram, são presa fácil dos predadores.
- Talvez. Contudo, parafraseando a poeta, também há quem queira viver tudo numa noite...
- Pois há, mas também há quem queira ver mais longe, quem queira arriscar perder-se a procurar, aprendendo a aquietar o ego enquanto se dilui na imensidão. E um caminho, seja qual for a sua dimensão, deixa sempre vestígios.
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sábado, 18 de maio de 2013

VASSOURADAS DE GIESTA COM CEREJAS AO FUNDO

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Imagem do Google
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As cerejas, sempre tão desejadas, parecem prenhes de esperança, mas já nem a promessa do delicado rubro doce nos anima. No peito fervilha a insatisfação, o desespero, o sabor amargo da aura dos vendilhões do templo.
Na natureza, eterna confidente, ainda perdura o aroma da flor da giesta, mas a hora é de artesanar, de cantar, de agir. Uma vassoura de giesta, tecida com convicção, poderá ser fio condutor de vontades mil.
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Imagem do Google
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No meu país andam ganapos perversos à solta, que de tudo escarnecem, de tudo riem. 
No meu país esqueceu-se, nas voltas do medo, do efeito balsâmico de dois bons açoites.
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sábado, 11 de maio de 2013

AROMAS DE MAIO

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Frida Kahlo, Despertar 
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No vale todos se conheciam, todos identificavam a tosse e o riso uns dos outros. A brandura dos dias fazia-se em diálogos com plantas, trocas de chás e estórias pitorescas, equilíbrios bordados em padrões naturais.
Pedro chegara em Maio, quando os aromas inebriavam, incontrolavelmente, os sentidos. Fora incumbido de instalar um posto médico no vale, de levar luz a uma terra de luz. Chegara com uma mala cheia de sonhos, de tudo transformar, mas depressa percebera que, ali, o sentido da vida tinha outra configuração. Pouco sabiam da ciência dos manuais, é certo, mas pareciam conhecer, desde sempre, o murmúrio das águas e o rumor do vento. E, a pouco e pouco, fora transformando o conteúdo da mala. Já não queria tudo mudar, apenas acrescentar algo ao que lhe parecia a mais genuína fonte de viver. Equilíbrios geram equilíbrios.
Muitos anos se passaram. Quem o enviara instalara-se em torre de marfim, decorada com brinquedos caros, cada vez mais caros. O discurso mudara. Já não se falava em chegar às pessoas, mas sim em custos de infra-estruturas, em custos de manutenção. Nunca no custo dos brinquedos.
O posto médico fechou, mas Pedro não partiu. Divide os dias a ler, a tagarelar, a cuidar da horta, a assistir quem dele precisa. Por esta altura, nos fins de tarde, todos identificam o seu lento caminhar pelas ruas, a absorver os aromas de Maio.
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

ACERCA DOS ENCANTAMENTOS

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Salvador Dali, Barco com borboletas
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Ia e vinha, sem pedir licença.
Quando chegava, mesmo no pino do Inverno, a paisagem do vale transfigurava-se, como se tudo tivesse a leveza da brisa estival do fim de tarde. Ninguém perguntava por onde andara, ninguém lhe cobrava a ausência. Davam-lhe espaço, sorriam-lhe, contentavam-se em respirar a sua aura.
Nesses dias de encantamento, de indefinível fio condutor, todos se deitavam mais tarde, todos se levantavam mais cedo. 
Não se demorava muito, que seres assim não querem amarras, apenas o tempo suficiente para que as luzes se mantivessem acesas. Depois prosseguia, em serena translação, semeando esperanças no ar.
Há pessoas assim. Não se sabe de onde vêm, que conjugações astrais as geraram. Delas apenas se sabe que nasceram para encantar.
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quinta-feira, 25 de abril de 2013

SEIVAS DE ABRIL

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Aguarela de Ana Pintura
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Os cuidados com as árvores começaram mais cedo. Fizera uma ou outra enxertia, cavara, estrumara, podara.
Entretanto, cansada de jogar às escondidas, a primavera assomara, começara a sorrir, abrindo portas à grande azáfama na horta. Com a compostagem no ponto, feita com as plantas da época anterior, em estágio invernio, delineava-se o melhor local para as diversas plantações. Na terra já havia couves, alhos, morangueiros, favas e ervilhas, mas o grosso da horta estava por fazer. E, com o tempo, isso tornara-se um ritual. As passadas sucediam-se, de cá para lá, de lá para cá, mas a dúvida era companheira frequente.  Aqui as cebolas, depois as alfaces, os tomateiros, os feijoeiros. Talvez a seguir as plantas aromáticas, pensou, são inibidoras das pragas, depois as beringelas, os pepinos e os pimentos. Mas ainda faltavam as abóboras, os melões, as beterrabas...
Os desenhos sucediam-se, queria conciliar a harmonia das plantas com a fluidez da colheita, mas muitas voltas havia por entender. A horta era uma descoberta constante, cada espécie requeria um especial cuidado, adequado à sua sensibilidade. Aconselhara-se com este e aquele, mas depressa intuíra que a cada cabeça, sua sentença. Parecia haver um princípio geral, é certo, mas quanto à essência de cada planta, só tentando, só sentindo. Se fórmulas houvesse, talvez a formada nas memórias do avô, atento observador dos astros e amigo da passarada, fosse a mais adequada: a horta gosta de pequenas delicadezas, de namorar, de ver o hortelão todos os dias.
Hoje, bem cedo, a horta viu-o chegar de rubro cravo na mão. Se tinha que conhecer a sua essência, também ela teria que conhecer a sua.
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terça-feira, 16 de abril de 2013

ESTRANHA MELODIA

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Hélio Cunha, Estranha melodia
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Partira bem cedo, mas a ascensão não fora fácil.
Quando chegou, após curta pausa, escolheu quatro pedras e colocou-as à laia duma rosa-dos-ventos. Sentou-se no meio, orientado para o sol, e olhou em volta, demoradamente, como que a absorver o que o rodeava. 
Cerrou os olhos. O silêncio, a pouco e pouco, foi ganhando asas, abrindo portas a melodias até então alheias ao ouvido. A princípio, ainda imbuído do pó da planície, não encontrava o copo com que beber as notas da estranha pauta. Demasiada física, pouca química. Depois, já alheio à ditadura do tempo, começou a perceber a linguagem da brisa na pele, nas pedras, nas ervas, bem distinta da discreta presença do melro-das-rochas.
Partira bem agasalhado, mas começava a sentir-se nu. Tudo se conjugava, tudo se envolvia. Mergulhara, finalmente, nos acordes da profunda melodia.
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terça-feira, 9 de abril de 2013

AROMAS DE PERTO E DE LONGE

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Margarida Cepêda, Diálogo
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Quando éramos jovens potros, lembras-te?, olhavas, distante, a beleza das tulipas. Dizias que eram demasiado intensas na cor, no rigor das linhas, efémeras em demasia.
Nas luas que foste bebendo, entre o cá e o lá, ousaste abrir a tua caixa negra. A princípio gritaste de pânico, não existia linha de separação entre o anjo e o diabo, mas foste aprendendo, em banho de humildade, a apaziguar a insegurança da tua nudez.
As tulipas nunca serão as flores do teu jardim - preferes as violetas, eu sei - mas já não as renegas. Aprendeste que qualquer pingo de beleza, por mais ínfimo, é melodia que ecoa no jardim das palavras primitivas.
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terça-feira, 2 de abril de 2013

RABISCOS DA PERPÉTUA CEGUEIRA

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Salvador Dali, Contador Antropomórfico
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Olhava, do alto da falésia, os barcos que partiam.
Dentro dela conviviam, em constante agitação, laivos despoletados por múltiplos cenários. Uns asfixiavam, outros tendiam a esboçar movimentos do abrir e fechar de portas. Da complexa amálgama, em constante fermentação, ia arquivando ficheiros, sabedoria acumulada que, de tão ciosamente guardada, apenas o pó tolerava por perto.
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