quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

TELA QUASE PRIMAVERIL

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Imagem "roubada" do Pinterest
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Havia um ribeiro, de águas calmas e murmurantes, abrigado na sombra dos salgueiros. Em volta, nos campos enfeitados de alvas margaridas, as borboletas, num arroubo quase hipnótico, ensaiavam leves e delicados movimentos duma dança ancestral. 
Olhei, olhei…, que lhe faltava? Só quando surgiste, sorridente, na curva do caminho, é que percebi, finalmente, que a tela estava completa. E publiquei.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

PAISAGEM COM CORONA AO FUNDO

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AC, Ervilhas
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Começam a chegar dias mais soalheiros, por vezes gaiteiros, confirmando que a roda das estações anda a precisar de um bom ajuste.
A passarada, com um relógio biológico bem apurado, imune a cogitações humanas, faz-se notar, e de que maneira, a cada dia que passa. O olhar espraia-se, aprovador, deixando-se envolver pelo resultado das movimentações dos últimos tempos: já se apararam as quatro sebes; plantaram-se novas árvores; limparam-se os canteiros; queimaram-se alguns sobrantes; fez-se a poda de algumas árvores mais antigas; começou a preparar-se a terra para a horta de verão; as ervilhas, na horta de inverno, começam a sorrir...
Tudo parece no seu lugar, em harmonia, mas desta vez o pensamento não se liberta por completo. Insinuam-se os ecos do coronavírus que, de tanto matraquear, começam a fazer alguma mossa. Diz-me o instinto que eles, os deuses pardos, não nos estão a contar tudo, chinesices rima com segredices, que a coisa está muito longe de estar controlada. Aguardemos.
Indiferente às minhas cogitações, o Whisky, o canzarrão trazido pelas visitas de almoço, saltita à minha volta, insinuante, a salivar com um pau na boca. Ele tem razão. Vamos lá mexer essas pernas e brincar um pouco, amigo.
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Domingo, 16/02. Os donos do Whisky estiveram cá novamente a almoçar e, claro, trouxeram-no com eles. Habitante de apartamento, o rapaz aproveitou para pintar a manta, quase sempre de pau na boca, envolvendo toda a gente na brincadeira. No final, satisfeito com as emoções da vida ao ar livre, mostrou pouca vontade de se ir embora. Começa por aqui a criar laços, o malandreco.
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sábado, 25 de janeiro de 2020

ESTRANHA MELODIA

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Imagem retirada daqui
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Partira bem cedo, determinado, mas a ascensão não fora fácil.
Quando chegou, após curta pausa, olhou em volta, escolheu quatro pedras e colocou-as à laia duma rosa-dos-ventos. Sentou-se no meio, orientado para o sol, e olhou em volta, demoradamente, como que à espera que algo o tocasse. 
Fechou os olhos. O silêncio, a pouco e pouco, foi ganhando asas, abrindo portas a melodias até então alheias ao ouvido. A princípio, ainda imbuído do pó que trouxera das veredas do vale, não encontrava o copo com que beber as notas da pauta. Demasiada física, pouca química. Depois, já alheio à ditadura do tempo, começou a perceber o murmúrio da linguagem do vento na pele, nas pedras, nas ervas, bem distinta do esporádico canto do melro-azul. 
Fora bem agasalhado, mas começava a sentir-se nu. Às tantas já não havia ele, nem pedras, nem plantas. Tudo se conjugava, tudo se envolvia. Mergulhara, finalmente, nos acordes da profunda melodia.
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Reedição
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O LADO SOLAR, NATURALMENTE

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Fotografia de AC
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Não tinhas hora certa. Chegavas a qualquer momento, sem filtros, desdenhando  dos pinheiros que, à beira do caminho, se dobravam à passagem do vento. No princípio ainda te questionavam, mas rias-te dos porquês, dizias que cheiravas as flores porque sim, as aves eram mero adereço. Prendias-te à forma, aligeiravas o conteúdo.
Um dia, ao chegares, reparaste que não havia ninguém para amortecer o impacto do teu riso. Até as aves tinham partido, sem alarde, planando na eterna via do lado solar.
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A HORA DOS PEQUENOS MILAGRES

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AC, Árvore dos pequenos milagres
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As manhãs têm acordado tingidas de branco, com a geada a tricotar complexas geometrias a que poucos dão atenção, tolhidos pelo frio. Mas o sol logo se levanta, dominador, avesso a alvas arquitecturas. Aos poucos a passarada começa a fazer-se notar, ensaiando os primeiros gorjeios duma eterna sinfonia.
Começa a desenhar-se o ritmo cadenciado da enxada, insaciável na vontade de cavar fundo. Surge uma cova, duas, cinco, oito..., a quem sopro palavras cerimoniosas que mais ninguém ouve. Irão ser portal de entrada para novos seres, ávidos de estreitar laços com a grande mãe, e toda a harmonia é necessária. É então que entram em cena as árvores em fase imberbe: amendoeiras, nogueiras, marmeleiros, macieiras e limoeiros, todas ávidas de entrar em sintonia com a filosofia da Grande Arquitectura.
A tarefa, bem condimentada de estrume, vai-se cumprindo num aparente alheamento do tempo, imune a qualquer bramido do mundo dos homens. As pausas surgem, com naturalidade, com a vista, em estreito contacto com a alma, a alternar poiso entre o arvoredo da Gardunha e a grandeza granítica da Estrela. Lá no alto, sem pressas, uma ou outra ave de rapina vai planando, à espera dum qualquer sinal.
A luz começa a esvair-se, o corpo começa a pedir aconchego. Mas, antes, um eterno assomo alquímico, em que os deuses parecem mostrar uma ínfima ponta do véu, ainda que por breves instantes, de algo que nos transcende: o Sol, num último gesto acariciador, parece vestir-se dum enorme manto mágico que tinge o céu, estendendo a passadeira à Lua com um enorme piscar de olho. É a hora dos pequenos milagres.
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sábado, 21 de dezembro de 2019

NATAIS DE ESPERANÇA, ESPERANÇA DE NOVOS NATAIS

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imagem com origem desconhecida
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Por onde passava só via terra devastada. Colheitas queimadas, pilhagens, nascentes envenenadas. Teimava em prosseguir, mas os sinais não mudavam. Por todo o lado a mesma aridez, o mesmo fruto da falência das ideias. A vida é feita de ciclos, lia-se nos livros, mas os ciclos são a prova da cegueira colectiva. Sempre os mesmos erros, sempre a mesma tendência para o arrotar do estômago. E, em celeiro vazio, o músculo acabava por assomar.
Da cabana, em plena floresta, saía uma leve coluna de fumo. Aproximou-se, cauteloso, mas não via guardas nem defesas, apenas um jerico que pastava, indiferente ao que o rodeava. Espreitou. Lá dentro, como se da coisa mais natural se tratasse, duas pessoas afadigavam-se a manter vivo o lume, mexendo de quando em vez, com uma colher de pau, num caldeirão que destilava odores apetecíveis. Próximo, num berço de madeira, um bebé dormitava.
Bateu à porta. De dentro não perguntaram quem era, limitaram-se a abrir. E entrou. Dois rostos sorridentes encaminharam-no para uma tosca mesa de madeira, onde o aguardava uma tigela de caldo fumegante.
No final, já saciado, olhou em volta. Na cabana pouco ou nenhum conforto havia, mas uma prateleira de tigelas chamou-lhe a atenção. Eram para quem chegasse, disseram-lhe, um estômago reconfortado ajuda a manter a esperança. E continuavam a sorrir.

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Reedição
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

CONTO DE NATAL EM VERSÃO MICRO

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Imagem retirada da net
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Havia um olho, uma mão e um coração. E a escuridão.
O olho não via, o coração dormia, a mão não dava a mão.
Um raio, descomunal, rasgou a noite. O olho viu, o coração despertou, a mão quis dar a mão.
Com a esperança em eclosão, e em jeito de conclusão, eis como ficaram a saber aquilo que realmente são.
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domingo, 8 de dezembro de 2019

PLANURA TRANSVERSAL SOBRE A AGITAÇÃO DOS ECOS

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AC, Medronhos
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É forte o bramido das ondas, procurando almejar as barreiras que teimam em se perpetuar, sempre em constante mutação. 
O vento sopra-me que não há outro caminho, mas adivinha-se a proliferação dos diques, das ilhas, dos desertos. A multidão agita-se, inquieta,  enquanto se multiplicam os profetas, quase todos urdidos em cinzentas vestes. 
As aves, contudo, continuam a apurar o seu voo, enquanto os medronhos, tingidos dum rubro sedutor, atingem o seu pico de maturação. E o sorriso, para lá do tom ruidoso dos ecos, acaba, naturalmente,  por se instalar.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

BREVES FRAGMENTOS DA LINGUAGEM DA LUZ

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Fotos de AC
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Já se some o fulgor outonal, breve lampejo prometedor dum grande final, em apoteose, dando lugar ao recolhimento próprio da gestação dum novo ciclo. A luz, contudo, teima em manter-se, serena, como que a alimentar olhares perscrutadores em busca da compreensão da alquimia do grande caldeirão.
Nos fins de tarde já não se vêem bandos de garças a saudar os últimos raios de sol, mas os atrevidos pardais e as esquivas pegas-rabilongas continuam a fazer-se notar, em eterna busca de alimento. Dos lados da Estrela sopra um vento agreste, a convidar recolhimento junto da lareira. Na Gardunha, mais próxima e prazenteira, a policromia das folhas de cerejeira e dos castinçais é já saudade, começando a adornar o solo em suave e delicada carícia.
Já se some o fulgor outonal, mas a luz, plena de sugestivas roupagens, continua incansável na projecção de subtis e renovados sinais.
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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O CAMINHO DAS PEDRAS

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AC, Saudação
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Chegam-me ecos dos teus passos, andarilha de todos os recantos, canção ancestral constantemente renovada.
As pedras do caminho, aqui e ali adornadas pelo cerimonial da queda das folhas, têm uma textura familiar, como que eternizando a sua presença. Por vezes, quando nada se parece insinuar, tens a tentação de querer parar. Sentes-te cansada, queixas-te, começas a olhar para trás. Mas resistes. Sabes que, se o fizeres, acabas por desembocar num labirinto. E voltas ao caminho das pedras, aspirando formas e aromas, tentando decifrar a sua linguagem. Não há outro rumo.
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