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AC, Árvore dos pequenos milagres
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As manhãs têm acordado tingidas de branco, com a geada a tricotar complexas geometrias a que poucos dão atenção, tolhidos pelo frio. Mas o sol logo se levanta, dominador, avesso a alvas arquitecturas. Aos poucos a passarada começa a fazer-se notar, ensaiando os primeiros gorjeios duma eterna sinfonia.
Começa a desenhar-se o ritmo cadenciado da enxada, insaciável na vontade de cavar fundo. Surge uma cova, duas, cinco, oito..., a quem sopro palavras cerimoniosas que mais ninguém ouve. Irão ser portal de entrada para novos seres, ávidos de estreitar laços com a grande mãe, e toda a harmonia é necessária. É então que entram em cena as árvores em fase imberbe: amendoeiras, nogueiras, marmeleiros, macieiras e limoeiros, todas ávidas de entrar em sintonia com a filosofia da Grande Arquitectura.
A tarefa, bem condimentada de estrume, vai-se cumprindo num aparente alheamento do tempo, imune a qualquer bramido do mundo dos homens. As pausas surgem, com naturalidade, com a vista, em estreito contacto com a alma, a alternar poiso entre o arvoredo da Gardunha e a grandeza granítica da Estrela. Lá no alto, sem pressas, uma ou outra ave de rapina vai planando, à espera dum qualquer sinal.
A luz começa a esvair-se, o corpo começa a pedir aconchego. Mas, antes, um eterno assomo alquímico, em que os deuses parecem mostrar uma ínfima ponta do véu, ainda que por breves instantes, de algo que nos transcende: o Sol, num último gesto acariciador, parece vestir-se dum enorme manto mágico que tinge o céu, estendendo a passadeira à Lua com um enorme piscar de olho. É a hora dos pequenos milagres.
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