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terça-feira, 30 de março de 2021

O NINHO DE MELRO: UM GESTO, UMA CONSEQUÊNCIA

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AC, Ninho de melro
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Viver no campo é bom, é mesmo muito bom, mas desiluda-se quem pense que tudo é descanso e contemplação. As tarefas acumulam-se, de dia para dia e, por mais que se faça, parece que pouco ou nada se fez. Há pois, que desligar da vida lá fora - o das pessoas apressadas - aprender a relativizar as coisas, dar-lhes a importância que realmente têm. Só assim se alcança a satisfação, o equilíbrio.
Andava eu, esta manhã, a tentar domar o crescimento desmesurado dum arbusto, próximo duma das janelas da casa, satisfeito por, ao fim de dois dias, a vacina que levara contra o Covid não apresentava quaisquer reacções adversas. Desbastava aqui, podava ali, sempre com preocupação geométrica, quando, de repente, se me insinua um ninho de melro. Deslumbrei-me, primeiro, com a delicadeza dos ovos, mas horrorizei-me, depois, qual sensação de crime cometido. É que, ao podar os ramos que protegiam o ninho, provavelmente ele irá ser rejeitado pelo casal de melros, sujeito que ficou à investida de qualquer predador. Preocupado, tentei camuflar aquele centro de vida com dois pequenos ramos, mas dificilmente isso resultará. A não ser que...
Vou ficar atento, vou acreditar. Talvez, quem sabe, os melros me surpreendam, como tantas vezes a Natureza o faz. Mas, até lá, fica uma sensação de culpa que teima em não desaparecer.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O REGRESSO

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À medida que o carro galgava os últimos quilómetros, sentia apoderar-se de si uma ansiedade pouco usual. Tinha saído da aldeia natal com tenra idade, e sempre procurara guardar a memória dos sítios onde crescera em feliz despreocupação. Pela sua mente desfilavam recordações e acontecimentos, resquícios de um passado quase irreal, emergindo dum tempo em que a vida se regulava pelo ciclo das estações.
Quando dobrou a grande curva da Volta, o casario, até aí escondido pelas colinas, surgiu-lhe de truz. Parou o carro e saiu lá para fora, deixando-se invadir pelo forte aroma dos pinheiros. Como em muitas outras aldeias do interior, as velhas casas de outrora foram submergidas por dezenas de vistosas vivendas, consequências do sonho emigrante, regressado ao velho torrão de origem para passar uma vida tranquila, sem mais preocupações que o cuidar da imprescindível horta. Ao centro era bem visível a altaneira torre da igreja, cujo repicar de sinos continuava a ser o marco regulador da vida daquelas gentes.
Entrou na aldeia, com o carro em marcha lenta, percorrendo a estrada que acompanhava o percurso da ribeira, vinda dos lados da Estrela. Os seus olhos indagavam velhos lugares, cenários onde, há muito tempo, um pequenote atrevido sorvia a vida num espaço resguardado pela geografia dos montes e pelas leis dos mais velhos. Passou junto à ponte medieval, cenário das primeiras tentativas de pescador, onde, toscamente munido duma linha de costura e de um alfinete a servir de anzol, tentara em vão a sua primeira captura, para gáudio dos próprios peixes. Logo a seguir surgia o lameiro, uma zona plana e ervada na margem direita da ribeira, palco de alguns conflitos, nas grandes tardes das férias grandes, entre as lavadeiras e a garotada irrequieta: aquelas porque precisavam do espaço para secar a roupa, estes porque não havia sítio mais maneirinho para a disputa de intermináveis jogos de futebol. Ao fundo via-se o açude, cujas águas represadas proporcionavam grandes banhos retemperadores nas tardes cálidas de Verão. Era ali, no Portal do Meio, que todas as gerações da aldeia aprendiam a nadar, num estilo pouco vistoso mas eficaz.
Continuou a marcha e subiu a rua que levava à igreja, que se desenhava, lá em cima, de forma opulenta. A meio da rua virou à esquerda, em direcção ao bairro onde nascera. Passou pela renascentista capela das Almas, com um amplo largo onde muitos santos foram festejados ao som da Banda Filarmónica local, e chegou ao velho fontanário da Fonte de Cima, que agora só servia para um ou outro burro se dessedentar. A rua que o vira crescer ficava logo a seguir, e decidiu deixar ali o carro.
Quando se apeou olhou em volta. Uma velha de lenço preto espreitava a uma janela, mas na rua não se via vivalma. Apenas um rafeiro curioso dava sinal de si, rosnando, desconfiado, para aquele intruso. A ruína de algumas casas era evidente, mas deixando ainda resquícios dum viver que se esvaíra demasiado depressa. Longe ia o tempo em que os dias decorriam, buliçosos, marcados pela azáfama do cultivo dos campos. Havia sempre muita terra para esgravatar, que a sobrevivência das famílias, com muitas bocas para alimentar, assim o exigia. Os mais novos começavam cedo a ajudar, e dividiam o tempo entre a escola, as brincadeiras e a iniciação à aprendizagem dos trabalhos agrícolas.
Quando chegou ao local da sua demanda, em vão procurou a casa onde nascera, onde o balcão de xisto era referência de toda a rua. Sentiu um aperto no peito, e virou costas a um mamarracho de janelas de alumínio que tinham construído no seu lugar. O encantamento tinha-se desvanecido com aquela visão. Ainda tentou preservá-lo, metendo pelo caminho do Ribeiro, cenário onde os irmãos mais velhos o tinham iniciado nos segredos das descobertas dos ninhos (Eu sei um ninho de melro! - gritou ele, na primeira descoberta) mas já não se conseguiu recompor.
Quando entrou no carro sabia que nunca mais voltaria. Já ali não pertencia. Mas iria continuar a conservar dentro de si, qual tesouro de incalculável valor, a imagem da casa de balcão de xisto com uma varanda de madeira, onde o velho Luís, ao serão, lhe contara tantas histórias de encantar.
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sábado, 11 de março de 2023

LAUROS, MELROS E EQUILÍBRIOS

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AC
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Foi na manhã deste sábado, mas poderia ser a qualquer hora dum dia qualquer. Aproveitando a folga dada pela chuva - deveria chover mais, era bom para todos, penso para mim, apesar de, incoerente com o pensamento,  me animar com o sol que espreita - fui lá para fora podar a sebe de lauros que contracena com os dois portões da entrada, com a noção de que já era mais que tempo, pois  estas plantas, se houver qualquer descuido, tendem a crescer desmesuradamente. Até aos 12 metros, informa-me o Google.
O trabalho, ou melhor, o prazer de andar ao ar livre, sem restrições, absorvendo as múltiplas formas de vida, de forma natural e com isenção de formatações - a cada dia que passa, e num agradável aviso pré-primaveril, o chilreio da passarada, com novas espécies migradoras à compita, está mais diversificada, as abelhas e as borboletas, numa azáfama constante, estão cada vez mais presentes, as árvores começam a dar sinais de despertar, num perpétuo ciclo em constante equilíbrio - prosseguia em bom ritmo, de alma lavada, sem questões existenciais, numa progressão de baixo para cima. Às tantas, e chegado a um patamar em que a altura dos lauros já aconselhava um corte radical, não fossem eles escarnecer do estado de crescimento dos seus pares, já devidamente podados, deparo-me com um ninho de melro. A situação não me era desconhecida e, a fim de contrariar o acontecido há dois anos, interrompo de imediato a faina, com o prazer a esfumar-se, ou antes, a ter que ser reformulado. E, apesar da sensação de templo profanado a pairar no ar, ousei ir a casa em busca da máquina fotográfica para registar o momento. Com cuidado, muito cuidado, subi três degraus do escadote e preparei-me para o registo da imagem. Mas o sentimento de culpa, essa herança judaico-cristã que nos acompanha de braço dado, com garras profundas, não me permitiu captar o momento com a atenção desejável. E, quase a medo, lá despachei o clique, com receio de que a casa alheia, sabiamente tecida, fosse rejeitada pelos seus habitantes, atendendo à sua vulnerabilidade, apesar de, desta vez, ela continuar bem camuflada.
Com a preocupação de nada, ou pouco, incomodar, e só com uma apressada tentativa, pouco de acordo com os cânones, a fotografia ficou má, é um facto, e quase me regozijo por isso, qual acto de penitência pelo meu descuido no afã da arte de bem podar. Talvez, e fico a torcer muito por isso, o casal de melros continue a sentir-se em segurança, apesar da intrusão do podador. Era sinal de que, a pouco e pouco, e apesar dos meus percalços, vou conseguindo equilibrar-me com o que me rodeia, no mundo natural, com o menor impacto possível. 
Regresso a casa, devagar, com o escadote numa mão e a tesoura e o serrote na outra, num agridoce debate de sentimentos. De repente, como se os deuses me escolhessem para diversão, oiço à distância  o delicado canto do casal de pintassilgos que, de há uns tempos a esta parte, por aqui aportou. Estaco e, quase sem me dar conta, esboço um sorriso perante tal dádiva. É o suficiente para o meu sol interior começar a brilhar, sem restrições.
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domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICA DUM HOMEM SIMPLES

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AC
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Arredara-se dos homens, seres de mil faces, e acomodara-se numa pequena quinta abandonada. Mau negócio aos olhos dos outros, um pequeno paraíso, feito refúgio, no cintilar dos seus. Os filhos bem tentaram demovê-lo, mas nada feito. Era mesmo aquilo que ele queria.
Alberto limpou, cortou silvas, fez obras, rasgou a terra. Quanto mais fazia mais se ligava, mais jorrava, dentro dele, um sentimento de pertença.
Sentia-se grato a cada dia que passava, de alma aberta ao crescimento e ao definhar das plantas, ao distanciamento respeitoso da bicharada. Só os pardais, eternos senhores de qualquer lugar, pareciam indiferentes à sua presença.
Com o tempo foi descobrindo a magia dos enxertos, qual alquímica arte de multiplicação dos frutos. Tentou macieiras, cerejeiras, pessegueiros, pereiras, abrunheiros... Ganhou-lhe o jeito e, vá lá saber-se como, começou a ganhar prestígio nos seus vizinhos, que de vez em quando o convidavam para exercer o seu talento. Talvez fosse pelo reconhecimento da sua arte, talvez fosse pelo pretexto de saber mais daquele homem simples, de olhos brilhantes, que nunca se queixava fosse do que fosse. E isso intrigava-os. Alberto ajudava no que podia, tentava ser cortês, mas depressa regressava ao seu refúgio. Não era dado a grandes conversas.
Os filhos visitavam-no uma vez por ano, mas depressa se iam. Amarrados pelos compromissos de outras vidas, continuavam a não entender aquela espécie de felicidade do pai, cada vez mais entranhada.
Com o tempo começou a tentar enxertos de várias espécies na mesma árvore. De uma só qualidade era fácil, a questão residia quando tentava congregar várias espécies. Tentou, cogitou, voltou a tentar.
O tempo dum homem nesta vida é limitado, e Alberto bem o sabia. Tudo tem um rumo, um caminhar, e outros homens ocupariam o espaço dos que, entretanto, iam partindo, deixando um legado natural, por mais ínfimo. Sentia-o profundamente, a comunhão com a natureza assim lho ditava. Talvez, por o sentir de forma tão profunda e, em simultâneo, natural, nunca se inquietou com questões de vida ou de morte. Continuava a fazer o que achava que devia, que lhe dava satisfação, num permanente deslumbramento pelas manifestações da vida. Por vezes, alheio à noção do tempo, era capaz de ficar horas a observar um besouro na sua labuta diária, era capaz de se deslocar uma distância considerável só para saber onde um melro fazia ninho...
Um dia, no fim do Verão, também chegou a sua vez. Os filhos, depois do funeral, reuniram-se na casa da quinta, fazendo contas à vida, e só então repararam numa árvore, diferente de todas as outras, que dava ameixas, pêssegos, pêras, maçãs... 
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sábado, 25 de agosto de 2012

BALADA PARA O SOPRAR DE NOVOS VENTOS

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Van Gogh, Paisagem da colheita
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A quinta, com o passar do tempo, fora ganhando uma ambiência muito própria. Durante o dia vivia-se a constância do movimento, moldada nos elementos. A natureza tudo nos dá, mas tudo nos exige, é uma cumplicidade sem concessões, e ali havia sempre algo para fazer. Contudo, chegado o ocaso, o vislumbre da lua apaziguava o instinto físico da sobrevivência. E, de forma natural, insinuava-se a poesia, cantando-se o já feito e as pontas daquilo que os desafiava. Semeava-se apaziguando, que a esperança carece de dificuldades domáveis. Era nessas alturas que Tiago se afoitava, que as suas palavras, preservando o que de bom tinham, os transportava para o que havia para lá do horizonte, recordando-lhes que não viviam sozinhos.
Um dia, num fim de tarde, Diana regressou. O seu olhar ainda guardava rastos de inquietude, mas estava diferente de quando partira. Havia nela um entusiasmo novo, próprio de quem encontrara algo e sentia necessidade de o partilhar.
Ao jantar, feito da frugalidade do que cultivavam, Diana começou-se a soltar. E falou com alma. Reforçou a ideia que já todos tinham – a impossibilidade dum mundo sob um jugo sem regras, que apenas beneficiava uma minoria sem rosto – e começou a lançar sementes dum diferente porvir. Reclamou da necessidade da visão feminina do mundo se chegar à frente, substituindo a secular e máscula prática guerreira, e que toda e qualquer solução, para ser sustentável, teria que se basear no equilíbrio com um elemento fundamental: a terra. E disse mais. Que, para lá da necessidade de as mulheres se chegarem à frente, era uma heresia ousar falar de liberdade quando não se respeita o mais elementar da nossa origem.
Tiago ouvia, deliciado. Não pela novidade, mas pela cumplicidade que sentia. Tudo aquilo, para ele, fazia sentido. Diana precisara de sair dali para entender, mas para ele a revelação viera com a percepção da elementar arquitectura da construção de qualquer ninho. Fosse ele de pintassilgo, de melro ou de rola. E, sem se dar conta, sorria enquanto ouvia.
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terça-feira, 28 de março de 2023

CURTA LETRAGEM

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AC, ninho de melro
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Antes havia uma árvore, um ninho, uma abelha e o desejo de ver o mar.
Agora há uma antena, um telemóvel, um drone e um especialista em comunicação.
Antes, olhando o horizonte, faltava algo. Agora, perante tanto movimento, falta muito mais.
Antes eu queria o movimento, de preferência com mar à vista. Agora, que conheço melhor os bípedes falantes, continuo a querer ver o mar. Mas, para além disso, apenas procuro entender a arquitectura dos ninhos, com a cumplicidade de quem possa abraçar. Sempre.
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