sábado, 23 de novembro de 2013

APOLOGIA DAS LOAS ÀS MANHÃS DE SÁBADO

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Hélio Cunha, A Fonte da Juventude
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Um levantar tranquilo, em lentos passos, o relógio no mais fundo do baú.
O café bem quente, o olhar nas tonalidades da serra, através da vidraça, mescla de verdes, dourados e castanhos de pinheiros, carvalhos, cerejeiras e castanheiros. A alma começa a encher.
A horta recebe a primeira visita. Não há lagartas à vista, couves e repolhos prosseguem o seu lento crescimento, lado a lado com alfaces e morangueiros.
Mais além, em zona não cultivada, a lenha, cortada no início do Verão e espalhada pelo chão, espera por cuidados. Apela-se à vontade, às luvas e ao carrinho de mão. A pilha de lenha, no abrigo, vai crescendo. Nada mais conta, apenas a satisfação de fazer o que deve ser feito.
No final da manhã, vestidas por completo as vestes da harmonia, escolhe-se a música certa, chave mestra dos mais íntimos recantos, acende-se a lareira e arquitecta-se o almoço.
O eco da diatribe dos homens, hoje, fica à entrada do portão. Num mundo em constante mudança, as manhãs de sábado, em contacto com a natureza, continuam a entoar loas à vida.
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sábado, 16 de novembro de 2013

INFINITOS VOOS, ETERNA SOLIDÃO

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Pintura de Margarida Cepêda
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Sinto a tua inquietação, a ânsia de domares as sombras que te perturbam os dias.
Mal desponta a aurora, pegas no melhor de ti e vais ao encontro do marulhar das ondas, ritual primevo na convocação da essência apaziguadora. É a hora de te despires, de enfrentares a tua efemeridade. Quando, por fim, começas a entender o ritual das gaivotas, há sempre algo que te transcende, que as impele para longe. 
É grande a sede de infinito, perpetuação da tua inquietação, mas não te basta entender, tu queres o poder do voo. E, sem te dares conta, ficas cada vez mais só.
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sábado, 9 de novembro de 2013

OS NOVOS DEUSES DA LUA

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Hélio Cunha, A lua do caçador
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Queima-se a dignidade, semeia-se o infortúnio. Da colheita augura-se a fúria, o desespero, correrias de vai e vem entre pés descalços e botas cardadas.
No final, purga feita, apenas se cultivam marionetas. Os novos deuses não carecem de mais. 
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sábado, 2 de novembro de 2013

A ETERNA QUESTÃO DE OUSAR

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Hélio Cunha, Pescadores de pérolas
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Há homens que trazem o mundo nos olhos. Ouvem-se, ouvem o vizinho, ouvem as árvores, conjugando tudo no mesmo respirar.
Há homens que, sendo o que são, se ultrapassam. São seres que acreditam, que lutam, que tudo abarcam no infinito.
Há homens, por aí, que ousam ser o que são, forjam o seu destino na imensidão da sua alma. Só nós, eternos temerosos, permanecemos em contínua sonolência.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEQUENAS NOTAS, CLÁSSICOS EXCERTOS

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Hélio Cunha, Águia voando ao encontro da sua flecha
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Não estava preparado para a solidão da descoberta. Sucumbiu às lembranças, pausou, inverteu a rota.
Regressou, de sorriso ténue, de fartura apenas uma mala de desassossegos. Quando entrou, não precisou de falar, num abrigo há sempre alguém para lavar as feridas. 
Pouco mudou, a não ser o reforço do alimento. És importante, és especial, e surge a força para mais um dia, o alento para o dobrar da esquina.
Vestiu uma camisa lavada. Aconchegou-se, pintou novas telas, desesperou com a eterna tonalidade escorregadia.
Surgem novos impulsos. Voltar é sempre uma forma de partir, mas com mais penas nas asas. No fundo pouco mudou, o pouco é sempre muito. Até as penas caírem.
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terça-feira, 22 de outubro de 2013

POSTAL A PRETO E BRANCO

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A cidade ficou para trás, mas o seu pulsar chega longe, numa agonia estridente, mesclada em contradições submersas em labirintos de desespero. As sirenes uivam, o asfalto é o simulacro duma arena sem regras. A multidão, numa ressaca desesperada de flores pisadas, esbate o desejo de circo, apenas almeja as voltas do pão. A cabeça, a cada passo, baixa um pouco mais. É a dignidade que se vai.
No resguardo do jardim, o mundo a duas cores: num banco, próximo da estátua do poeta, o sem abrigo enrola um desbotado cobertor; mais além, sob a terna capa dos avós, a criança descobre o fascínio da bola a rolar.
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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A INDELÉVEL MARCA DE SER

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Hélio Cunha, Os Frutos Prateados da Lua
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O teu olhar, ávido de respostas, segrega alquimias únicas, forjadas em eternas dúvidas, e só tu pareces não dar conta.
Há um rasto de ti - discreto, muito discreto - a que não dás importância, mas que marca quem por ti passa. Pode ser um gesto, a forma de dizer não, o sorriso enfeitado com o teu jeito de olhar o mundo...
Só tu pareces não dar conta, mas enquanto caminhas, plena de dignidade, até os cardos se parecem engalanar com a sua melhor roupagem.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

SINFONIA

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Hélio Cunha, A Terra Inteira
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Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, descias, de mansinho, o caminho que ia dar ao ribeiro, enquanto semeavas o aroma das violetas.
Dizias-me, ao ouvido, que a tua respiração se calava para ouvir os meus passos, respondia-te que a minha pele respirava todas as letras do teu nome. E no brilho dos olhos acreditávamos, entre murmúrios comungávamos...
Quando me pressentias, à tardinha, para lá dos salgueiros, era tempo de a ternura se soltar.
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domingo, 29 de setembro de 2013

EQUAÇÕES HARMÓNICAS ENTRE O IR E O VOLTAR

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Hélio Cunha, Memórias do absoluto
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Regressas, por momentos, a paisagens há muito adormecidas dentro de ti. 
Deslumbras-te na harmonia da água com as pedras, dos pinheiros com os carvalhos, da urze com o medronheiro. O velho, eterno resguardar de memórias, parece-te novo no rigor suave das linhas simples, que te convidam ao devaneio. E efabulas, arquitectas, parece-te viável o reformular da filosofia dos homens. Reconcilias-te com a vida.
Quando partes, não te falo da validade do brilho renovado dos teus olhos. Digo-te apenas para vires mais vezes.
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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

COM UM BRILHOZINHO NO BOLSO

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Júlio Resende, Pássaro
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Ainda te lembras, eu sei, das tardes junto ao pinhal, perto da ribeira, onde, até ao lusco-fusco, desenhavas os teus primeiros versos. Era primavera e o mundo chamava por ti, e nem o brilho daqueles olhos negros, que te arrebatavam as noites, conseguiam adormecer esse anseio.
Um passo apressado, dois, três... Nas primeiras caminhadas festejavas cada pedra transposta, cada chegar para lá da linha do horizonte. Quando, por fim, começaste a subir os montes mais altos, as linhas deixaram de ser claras, descobriste que as fronteiras apenas existiam dentro de ti. 
À noite, em volta da fogueira, ainda recordas, de quando em vez, o aconchego do mundo circunscrito ao pequeno vale. Sabes que não há recuo, a poeira do caminho há muito bebeu a tua pele. E continuas. Mas, por mais que caminhes, continuas a transportar, bem guardado no bolso, o brilho daquelas intermináveis tardes.
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