domingo, 16 de agosto de 2020

BICHOS

 .

AC, Gravura rupestre do Poço do Caldeirão, rio Zêzere

.
Esgueirava-se, por entre as giestas, tentando ver e não ser vista. Tinham-lhe dito que, a meio da manhã, passaria por aquelas bandas a Senhora dos Santos Bichos, a fim de esconjurar a maleita, e não queria perder a ocasião de lhe dirigir uma dúzia de palavras, ou pouco mais, a fim de colocar um açaime nos seus medos.
O andor, transportado por quatro acólitos, que precediam o padre, emergiu da curva do Carvalhal Redondo, transmitindo alguma solenidade ao acto. A Russa, ciente da ocasião, ajeitou a saia, passou a mão pelo cabelo e aguardou, ansiosa. Quando o cortejo passou à sua beira, deu um salto para o caminho, prostrou-se  no chão e, baixando a cabeça, inquiriu:
- Senhora dos Santos Bichos, minha santa, é verdade que anda um bicho à solta por aí?
Ninguém respondeu, o cortejo seguiu em frente. A Russa, não se contendo, exclamou:
- Homessa! Mas eu sou algum bicho do mato, ou quê?!
.
.

sábado, 15 de agosto de 2020

PARA LÁ DA TRANSPARÊNCIA

.

Margarida Cepêda, Transparente

.

Não tinham filtro, como quem respira à flor da pele. Corriam com vontade de abraçar a vida, sorriam com a naturalidade dos dias, transpiravam na azáfama de serem felizes. Sem o saberem, com tudo tão natural, eram mesmo. 

Perante tanta cor, tanto movimento, e com novas configurações a acenarem para lá do horizonte, queriam mais, e mais, e mais. Em suma, queriam crescer. Ainda não sabiam que, quanto mais queriam, mais defesas teriam que criar, vendendo a espontaneidade. Ser adulto, iriam sabê-lo depois, ia muito para lá da transparência dos primeiros dias. Conservá-la, ainda que com novas cambiantes, fazia parte dum novo desafio. Ou tinham força para sustentar a verdadeira essência, sabendo ultrapassar os medos, ou desciam no próximo apeadeiro. Sem dramas, se cada um souber qual o seu lugar. É então que começa a verdadeira luta.

.

.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

MULTIDÕES E MINORIAS, SAGRADO E INSANO

.
AC, Fogo à distância de um fósforo
.
.

Já não se sabe onde começa a história, mas, a determinada altura, perante a histeria geral, fomentada por alguns, toda a gente enveredou pelo refúgio em abrigos seguros, modernas cavernas que nos isolam, não só do "inimigo invisível", mas, acima de tudo, dos outros, ou seja, de nós próprios.
Em nome da segurança, começámos a seguir novas tendências: deixámos de abraçar, quase deixámos de opinar, falta-nos o ar, estamos a deixar de amar. Entretanto, para adensar o caldeirão de impropérios, os pobres estão cada vez mais pobres, os fracos cada vez mais fracos, a liberdade parece ter-se encerrado num quarto escuro. Até os incêndios, cada vez mais florescentes, parecem ajudar à festa.
Como em qualquer intempérie, a irracionalidade é como o azeite misturado na água, vem sempre à superfície: primeiro nós, depois nós, e só depois, muito depois, vêm os outros. Na prática, é o caos. Mas há excepções, claro, há uma minoria que, com fundamento científico e possuidora duma visão global, se satisfaz no bem comum, apesar das sementes da solidariedade tardarem em fazer efeito. Pacientes, aprenderam que construir custa muito, que poderá demorar, nalguns casos, gerações, enquanto que o acto de destruir, por vezes, fica à mera distância dum fósforo. Mas eles, apesar da manada começar a mostrar  sinais de impaciência, continuam a acreditar que a vida, para lá das religiões, é um acto sagrado. E trabalham, na sombra, para encontrar soluções, tentando contrariar, numa visão com fundamento, a besta destruidora que, lentamente, se vai insinuando  no nosso dia-a-dia.
.
.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

ROSA

.
Margarida Cepêda, No coração da rosa
.
.
Era o tempo dos cardos e das prosas inconsequentes, de viola a tiracolo, sem rumo definido.
Numa manhã orvalhada, parecida com muitas outras manhãs, um raio de sol deu brilho às gotas que escorriam, vagarosamente, das pétalas duma rosa, perdida entre as ervas dum qualquer jardim, como que a acenar com a revelação dos mais delicados segredos, promessa de mil e um encantamentos. Olhei, fascinado, quase não respirando. Ousei aproximar-me. Desviei as ervas, com cuidado, mas não o suficiente: um espinho pintalgou-me um dedo de vermelho, como que a alertar-me para a delicadeza da flor. Mas o perfume, ah, o perfume...! 
Nunca mais deixei de voltar. Entremeadas por ventanias e trovoadas, houve mais manhãs orvalhadas, mais manhãs de magia, sempre com o perfume a manter-se incólume. E eu, cultor de dúvidas, comecei a adquirir uma certeza: tu não eras uma rosa, tu eras a Rosa.
.
.

sábado, 25 de julho de 2020

ESBOÇO DE TELA EM DISCRETAS TONALIDADES

.
Margarida Cepêda, Azul
.
Para a Graça Pires
.
Há, na tua convicção, uma vontade que, apesar de adornada com cores reservadas, tudo ousa enfrentar. Não derrubando, isso nunca, mas respeitando, respeitando sempre, tentando entender olhando, sentindo, por mais que inquiete e doa. Depois, com o soltar de pequenas réstias de luz, vais vencendo os medos, construindo alicerces para um mundo novo, de janelas cada vez mais abertas, mas com espaços interiores onde apenas têm guarida as flores mais discretas e delicadas. 
No epicentro, resguardado como fio invisível que tudo sustenta, o veio inicial que te fez iniciar a jornada. É aí que reside o segredo, o precioso Graal que, depois de tanta demanda, descobriste que sempre esteve perto de ti.
.
.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

MIGUEL

.
Pormenor de A Criação, de Miguel Ângelo
.
.
Há um novo ser que desponta, rompendo as águas
um jardim que renasce, adornando a vida
a esperança a montar residência em todos aqueles  que o rodeiam.
.
A vida, assim, é mesmo bela.
Bem-vindo, Miguel!
.

terça-feira, 21 de julho de 2020

TEMPO SEM TEMPO

.
Salvador Dali, A Persistência da Memória
.
.
A canícula tem sido inclemente, tolhendo gestos e pensamentos, configurando um galinheiro em estado de sítio, com as galinhas a perderem o norte. Mas eis que, repentinamente, os deuses se compadecem, e enviam uma chuva apaziguadora, entremeada de raios e trovões, qual recado para os pretensos donos dum qualquer galinheiro.
A vida quer-se simples, apregoa o filósofo da reconciliação, mas isso dá uma trabalheira danada. E, pondo de lado qualquer reflexão, condição mínima para qualquer tentativa de evolução, dá-se primazia ao grito, à vitimização, tentando condensar a razão de ser aos gestos mais básicos e mais boçais. Dizem-me que é assim, que é da natureza humana, mas tenho dificuldade em aceitar essa argumentação. É que, para lá do básico, há sempre uma margem de progressão, alicerçada em princípios nobres e elevados, assim nós o queiramos. É uma luta dura, eu sei, uma luta de sempre. Com avanços e recuos. E não é à toa que, no mundo em que vivemos, emergem, ciclicamente, figuras de banda desenhada, ou de qualquer má ficção, como Trump, Putin, Bolsonaro, Kim Jong-un...
Voltemos à chuva benfazeja, permitam que me centre na minha horta. Ela sofreu, há tempos, um forte revés, mas, a pouco e pouco, começou a renascer, produzindo tomates, curgetes, pepinos, alfaces, cebolas, pimentos... Como em tudo, há que dar tempo ao tempo. E o gozo que me dá, depois da rega, colher esta ou aquela espécie para abastecer a cozinha!
Infelizmente, vivemos num tempo em que todos parecem querer tudo para hoje, olvidando as memórias, individuais e colectivas, de como se chegou até aqui. E exigimos, exigimos cada vez mais, como se tudo viesse dum saco sem fundo.
Agradeço aos deuses a chuva retemperadora, propícia a uma pequena pausa, mas ela não esbate a evidência: olhar para o nosso ego, continuamente, sem nos preocuparmos com a visão e o bem-estar dos outros, vai acabar por dar cabo de nós, sejamos bons ou maus. Sem excepção.
.
.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

O GRITO

.
Fotografia de Flavio Scalzo
.
.
Caminhavam quase hirtos, a medo, não se desviando do rumo pré-definido, como se em cada vulto, em cada esquina, ou em cada movimento, espreitasse o perigo. 
Fazia calor, o suor começava a insinuar-se, o incómodo fazia-se cada vez mais presente. Quase sem se darem conta, iam ajeitando as máscaras, tentando aliviar o não aliviável: a insegurança no recém-viver, a incapacidade racional de estabelecer pontes harmónicas para a nova forma de estar. 
Tentavam seguir as regras, mas elas mudavam a cada instante, acentuando a insegurança geral. Além disso, na luta pela sobrevivência, só alguns podiam ficar resguardados, em casa ou em qualquer poiso distante. Os outros, a grande maioria, os tais que o cronista de antanho designou de "ventres ao sol", muitos deles achocolatados, tinham que lutar, continuamente, por um lugar no autocarro, no comboio, ou no barco, onde o distanciamento social era remetido, sem aviso de recepção, para a procedência. Tinham que chegar ao destino, ou não recebiam.
Alina, veterana desta luta diária, desceu as escadas para entrar no metro do Marquês. Aproveitando um breve momento em que não via ninguém por perto, retirou a alça da máscara da orelha direita, manteve-a a meia haste e, com toda a convicção, lançou o grito libertador, prolongado pelas paredes do túnel:
- Foooodaaaa-se!
Depois, já mais aliviada, voltou a ajeitar a máscara e correu, desalmadamente, para não perder o comboio da sobrevivência.
.
.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

REDENÇÃO

.
Imagem retirada da net
.
.
Dizia-se amarela. Depois azul. Logo a seguir, quase sem pausas, assumia-se roxa, verde ou siena, pronta para o que desse e viesse.
Procurava-se? Não, nem tanto. Era apenas uma questão de sobrevivência para um ego sem sustentação, que dependia totalmente da energia dos outros. Então, sem verdadeiramente as sentir, ia desfilando cores, como estratégia, até que alguém se dignasse olhar. Depois, caso um ratinho cheirasse o queijo, fazia o pino, pintava a manta, queimava o sutiã. Numa tela resguardada, claro, longe dos rebentos, delicadas joaninhas que, felizes, se deslumbravam com as flores do jardim. E, por entre efabulações descontínuas, sem capacidade para pintar os cenários que evocava, acabava sempre por perder a cor,  afugentando a presa, dando guarida ao despeito e ao rancor.
Lá fora, indiferentes ao secreto jogo multicolor, as joaninhas continuavam a sorrir. Talvez nelas, tecedeiras de cores alegres e vibrantes, residisse a verdadeira redenção, e não tivesse que fazer como Marcel Proust: discorrer em busca do tempo perdido.
.
.

domingo, 12 de julho de 2020

LIÇÃO PRIMEVA

.
Imagem retirada daqui.
.
Um passeio em família, um vale com um ribeiro, a merenda.
Entre palavras e sorrisos, um melro, ladino, abeirou-se dumas migalhas. Com todos ligados à corrente das palavras, apenas o menino reparou, e o melro continuou. 
Já saciado, o melro partiu, o menino o seguiu. Foi então, importante lição, que ele percebeu que voar, para lá do falar, só mesmo na imaginação.
.
.