quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

EFÉMERO GRAAL, ETERNO PROCURAR

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AC
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Já discorreu algum tempo, imenso na dimensão dos homens, eterna condição efémera, mas ele, persistente na busca da cumplicidade, sem enfeites, teima em rebuscar um sol maior, olhos nos olhos, qual resguardo tecido na mais pura claridade, que é de factores como a luz, com muita água em resguardo, e do abraço, sincero, que a vida brota.
Ela, eterna garimpeira duma intenção maior, persiste em pesquisar nas estrelas, para lá de si e dos outros, como se tudo se conjugasse duma forma astral, com uns pozinhos de ancestral. 
Eu sei e, no meu íntimo, sei que ela também sabe, que as imperfeições vão muito para lá duma sessão nocturna a observar a lua, que as fraquezas são simples adornos da nossa condição, numa teia muito bem tecida por algo que nos ultrapassa.
Apesar de tudo, ela não se resigna quanto à teia, eu também não. E, enquanto especulamos, e convergimos, vamos aproveitando a luz das estrelas, com a lua, quando de feição, como aconchego. Nessas alturas o tempo deixa de contar.
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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O FEITICEIRO E O MENINO

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AC
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Havia uma árvore, um horizonte e um feiticeiro.
Como a ciência começava a imperar, o feiticeiro tomou a resolução da sua vida: esperou pelo fim de tarde, trepou à árvore e, solenemente, abrindo os braços, sentiu os últimos raios de sol como se da coisa mais importante se tratasse. Depois, lentamente, olhou em volta, como se tudo quisesse absorver, e preparou-se para o último mergulho da sua vida. Foi então que, vinda das proximidades, ouviu uma voz infantil:
- Olha, avô, que ave tão grande está poisada naquela árvore! Vai voar?
O feiticeiro, incrédulo, ficou estarrecido. E só então, qual revelação suprema, percebeu donde emanava a verdadeira luz. E, descendo da árvore, correu para abraçar o menino.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

SABERES EM VIAS DE EXTINÇÃO

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No vale, ainda antes de alguém acordar, espalhara-se um nevoeiro que tudo envolvia, que tudo devorava.
Quando despertaram as primeiras almas, e muitas havia que acordavam cedo, já não era possível escapar às garras do intruso. E, quase sem se darem conta, o pequeno-almoço já não sabia ao mesmo: havia algo, quase indefinível, que tolhia o movimento das pupilas gustativas.
Adriana,  imponente nos seus oitenta e muitos anos, rijos e de boa saúde, esgueirou-se por entre veredas, contrariando ideias feitas e maus olhados, e encaminhou os passos, ainda certeiros, para as courelas do Vale da Ponte, propriedade ancestral da família, onde as maçãs bravo esmofo e os figos pingo de mel já deveriam estar no ponto.
Colheu, avaliando a fruta, embalada pelo protesto de alguma passarada que via, de repente, ser-lhe interrompido o banquete, principalmente dos figos. Já a cesta estava cheia, com alguma humidade a escorrer dos frutos, quando se lhe deparou o inusitado: um raio de luz, irrompendo a névoa, parecia fixar-se, por entre as ervas secas, resquício dum verão inclemente, sobre um objecto metálico. Estacou, aproximou-se, olhou com atenção e... era a chave da loja onde costumava guardar o resultado das colheitas.
Não se benzeu, não agradeceu aos céus, não invocou qualquer crença sobrenatural. Limitou-se a sorrir, tranquila, enquanto pensava, de si para si, que a velhice tem as suas manhas, o que era preciso era saber aceitá-las. E continuava a sorrir, olhando de soslaio para a cesta, enquanto irrompia num passo suave, mas cadenciado, pelo pó do caminho, em direcção à sua casa de sempre.
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sábado, 23 de julho de 2022

JOGO DAS ESCONDIDAS - 1

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Margarida Cepêda, Procurando o princípio
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Ela foi ali e não disse, mas quis. A sua mãe, depois de dissertar acerca dos mil e um perigos da vida, deu-lhe um beijo e aconchegou-lhe o lençol.
Ela foi mais além e não disse, mas quis. A sua mãe, em silêncio, nada lhe disse, mas aconchegou-lhe o lençol de forma diferente.
Ela foi para muito longe e, olhando para trás, quase que não queria, mas foi. A sua mãe, qual ocaso da vida, limitou-se a acenar. 
A sua mãe partiu, mas não queria. E ela, sem certezas na vida, passou a mão pelo lençol que ela lhe tinha colocado na mochila. E, talvez tarde de mais, deixou que as barreiras do dique se soltassem e chorou, abundantemente, irrigando o caminho que ela, qual mortal errante, continuava a não descortinar. Mas, rompendo as margens, qual herança de pedra sem musgo, ousou continuar.
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domingo, 17 de julho de 2022

RENASCER

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Elvira Carvalho é uma blogueira muito conhecida, que espalha gentileza, boas maneiras e, contrariando as várias maleitas que a têm afectado, uma vontade enorme de viver. 
Há dias fez-me chegar às mãos o seu terceiro livro, Renascer de seu nome, em edição bilingue, pois nuestros hermanos estão mesmo aqui ao lado, e fazia-me um pedido: que lhe transmitisse a minha opinião. Pois bem, ela aqui fica.
A Elvira tem um forma muito peculiar de escrever. As vírgulas, por vezes, gostam de jogar às escondidas, trocando de lugar com um sorriso, mas quem a lê entra no jogo facilmente, tal a torrente de situações que lhe brotam da pele. E é ver, e sentir, a cruzada dos seus protagonistas, enfrentando o mau humor do destino com muita resiliência, sempre na boa fé de que a verdade é como o azeite.
Neste romance a autora descreve as emoções de Carlos, refém dum conceito de honra que ele cultiva como poucos, após um ferimento na guerra colonial que lhe subtraiu a memória. O enredo desenrola-se como se de um filme se tratasse, com vários locais de "filmagem" - Angola, Lisboa e Peso da Régua - a dar cor e substância à obra, recheada de incertezas, com a emoção e as incertezas do amor sempre presentes.
Renascer, tal como todas as obras da Elvira, lê-se num ápice e de forma muito agradável. No final, no meio de um suspiro, fica a sensação, que transpira das palavras, de que a autora, já tendo passado por muito, tem uma vontade enorme de participar no equilíbrio colectivo, devidamente alicerçada num mundo mais justo, com valores não hipotecáveis.
Parabéns, Elvira!
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sábado, 25 de junho de 2022

ENTRETANTO

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Margarida Cepêda, As nossas teias
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Há um tempo de frenesim na vida, no nosso crescimento, como se as coisas nos escapassem por entre os dedos, fugindo à vontade de mudar o mundo a nosso jeito. Mas, plenos de energia, continuamos.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo duma suposta estabilidade na vida, em que, a pretexto de salvaguardarmos os nossos, começamos a ser condescendentes. Mas os bens materiais são o perfeito antídoto para anestesiar a consciência.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas, com alguma ajuda, apenas lutam para sobreviver.
Há um tempo em que, por mais que nos custe, começamos a envelhecer. Mas socorremo-nos de todos os artifícios para adiar o inevitável.
Entretanto, noutras latitudes, as pessoas continuam a lutar, com alguma ajuda, para sobreviver.
Há um tempo em que, por fim, nada mais há para adiar. E só nessa altura, sem nada para subornar a ceifeira, temos a plena consciência da nossa condição.
Entretanto, noutras latitudes, há muito que os contemporâneos  de nascimento foram tragados pelo inevitável. Mas, felizmente, com maior ou menor ajuda, os que restam continuam a lutar para sobreviver.
Haverá um tempo em que, para lá do tempo que foi, apenas restará a lição. Só então, por mais que doa, se evitará a contra-mão.
Entretanto...
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domingo, 19 de junho de 2022

ABISMOS E LABIRINTOS, CANDEIAS (ETERNAMENTE?) ÀS AVESSAS

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Margarida Cepêda, Tocando para o abismo
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Os tempos eram de ameaça, apesar dos dirigentes se esforçarem por vender a canção "Tudo vai bem". O mal vinha de longe, sem aparente cura, e Ruican, que vivia numa solidão assumida, própria de quem via as coisas antes do tempo, mantinha-se inflexível. Havia que dar volta às coisas, combater o fatalismo, de inaugurar uma época para lá da escravidão de todos pensarem o mesmo...
Bruma, que crescera perto de Ruican, sabia muito bem o que ele pretendia. Mas, apesar de limitada à distância que lhe era concedida, conseguia perceber que, por mais que ele tentasse, haveria sempre uma barreira entre ele e os outros. Por mais que ele porfiasse, as pessoas iriam sempre agarrar-se àquilo que sempre tiveram, em detrimento daquilo que a maioria nunca teve.
Ruican gostava de Bruma, para lá duma visão maior, pois sabia que nela habitava o segredo da simplicidade. Mas pensava, para sua desgraça, que havia uma questão superlativa a descobrir.
Bruma gostava de Ruican, por ele mesmo, contra todas as expectativas dos outros. E, sem que ele soubesse, ia todos os dias, à tardinha, remar contra a maré das coisas fáceis: abeirava-se do penhasco, munida do seu violino e, perante a fúria dos elementos, tentava tocar a profundidade das coisas mais simples, qual segredo para chegar a Ruican. Mas este, demasiado entregue ao seu ego, tardava em perceber...
O abismo, sem que Ruican se apercebesse, demasiado entregue à sua visão, começava a desenhar-se à sua frente.
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sábado, 11 de junho de 2022

PARA ALÉM DO TEJO, COM BORBA COMO PRETEXTO

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AC, Fachada do antigo Hospital do Espírito Santo, em Borba
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Por entre uma história de corrupios e arrepios, desavenças e avenças, com muita insegurança de permeio, assim se cultivou um povo sobrevivente, de parcas e tímidas posses, mas que soube encontrar, na sua resiliência, a forma de escapar a um trágico destino. Muitos emigraram, povoando os dormitórios da capital, outros ficaram, cultivando um lamento muito próprio, em tom dolente, mas sempre com um sorriso muito próprio à espreita de assomar na primeira oportunidade. E, quando se conseguem libertar da canga, bebem, cantam, confraternizam, ironizam...
Em Borba, para lá das pedreiras e do vinho, a sua maior riqueza, há todo um manancial de culturas entre-cruzadas de conquistadores e conquistados, de sobreviventes e assimilados. E, por entre as fachadas de mármore, material só acessível a quem estava de bem com Deus e o Diabo, o casario  humilde, sem pretensões, acabava por agradar a todos: a uns, porque dispunham de mão-de-obra barata e sempre disponível; a outros porque, apesar de tudo, acabavam por usfruir dum tecto para abrigar os seus. Tudo isto à sombra dum castelo, obrigatório em terras tão inseguras, e do qual já pouco resta.
Entre diferenças - sempre presentes, tal era o abismo - o engenho acabou por moldar a arte.  A escassez da maioria, herança acumulada de séculos, deu azo a criatividades várias, com o campo, fora da supervisão dos poderosos, a contribuir com coentros, orégãos, poejos, hortelã, alecrim, louro e outros que tais, dando forma, consistência e sabor, a um considerável número de pratos tradicionais que muito orgulham os residentes, apesar de pouco, ou nada, se passar da cepa torta: ontem para comer, sobrevivendo, hoje para vender, continuando a sentir, no âmago, ainda e sempre, o sentido do verbo sobreviver.
O Alentejo, por mais voltas e contra-voltas que dê, nunca deixa de me encantar. As suas gentes, moldadas na herança de mil e um povos que calcorrearam o território, com um toque q.b. das planícies solarengas, com um olhar sempre projectado, inconscientemente, no horizonte, são uma espécie única. Para melhor.
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terça-feira, 31 de maio de 2022

O ETERNO (D)ESCAMAR

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AC, Pedreira de mármore em Borba, Alentejo
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Alentejo sonante, aparentemente adormecido, Alentejo cantante, com mil e um ais de herança. Para lá da diáspora, o território continua a reinventar-se, a sobreviver, como que a querer dizer aos demais que por ali há gente de alma nobre, afeiçoada à terra, onde se misturam, qual receita milenar dum equilíbrio identitário, a humildade, a simplicidade e o orgulho de se ser, conjugando, numa forma única de saber estar, as suas raízes profundas com a abertura, sem concessões, das janelas para o mundo. E, podem crer, para lá dos horizontes abertos, essa é a sua maior riqueza. 
Tínhamos passado o sábado em Estremoz, que nos acolheu de forma surpreendente. Se, por um lado, já estávamos à espera de nos maravilharmos com os bonecos de Estremoz, agraciados pela UNESCO como património da Humanidade, o Museu do Azulejo, que desconhecíamos - no género, é o maior da Europa, talvez do mundo - foi uma daquelas surpresas que, pelo inesperado, suscitou mais exclamações. Uau!, da forma mais espontânea, foi a mais sentida. E, por entre maravilhas e encantamentos, acabámos a sessão a comer uma belíssima sopa de cação, que rima e com muita razão (de ser).
Pernoitámos em Vila Viçosa, que continua, orgulhosamente, a recordar Florbela Espanca e, após alguns acordes tocados à monumentalidade histórica, sem araganças mas com muitos Braganças de permeio, fomos visitar uma pedreira de mármore, cartaz obrigatório desta região.
Eu dizia, a cada camada, tu dizias, deslumbrada... E, por mais que se olhasse, e sentisse, ficava sempre a sensação duma explicação incompleta. Tal como se falássemos da vida. Fotografe-se, pois, antes que a veia nos escape.
A tarde passou-se na nóvel cidade de Borba, com o mármore - tal como em Estremoz e em Vila Viçosa - sempre presente, ou não fosse esta a Rota do Ouro Branco. Como cartaz, numa arquitectura apaziguadora, bem integrada, lá estão os palácios, o castelo, os fontanários, as igrejas, o casario medieval... E sempre, mas sempre, com uma forma muita própria de estar dos residentes, qual reserva natural duma genuína identidade talhada pelos tempos.
No final, a convicção: há que voltar, mas desta vez com mais vagar. O sentir, o cantar e a forma de estar desta região bem o merecem. Talvez, quiçá, saibamos mergulhar ainda mais profundamente na alma desta gente.
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sexta-feira, 6 de maio de 2022

PONTES, BALOIÇANTES, ENTRE O VELHO E O NOVO

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AC, Ruínas do castelo de Castelo Novo
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Caminha-se pelas graníticas ruas de Castelo Novo, quase sem vivalma, com marcas evidentes dum passado já longínquo. Ainda assomam esboços de personagens por entre as rochas, à socapa, como que a querer-nos contar a história a seu modo, mas só os mais observadores reparam nelas. O passado entristece pelo desprezo, como que a augurar que, assim, o futuro não será nada risonho.
Nalguns quintais, em casas mais desafogadas, as laranjeiras e os limoeiros continuam a manter o porte digno. Mas também nalguns becos, com pequenas casas bem aconchegadas, se conseguem vislumbrar as vivências doutras eras. Incertas, pela certa, temperadas por uma religião, sob a égide da Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, que apostava, acima de tudo, no simbolismo. Como dizia uma certa fadista, cantarei até que a voz me doa. Por mais que sofrida.
Em toda a área circundante da pequena aldeia - já foi concelho, note-se, daí ser obrigatório, para qualquer visitante, espreitar o Pelourinho e a antiga Casa da Câmara, ainda bem conservados - se sente o abraço aconchegante da Gardunha. As encostas já foram riqueza florestal, é verdade, mas o amarelo das giestas, nesta altura do ano, a substituir o negro dos incêndios, adorna os afloramentos graníticos duma beleza singela, combinando a rudeza da rocha com a delicadeza da flor.
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AC, Encosta da Gardunha sobranceira a Castelo Novo
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No castelo roqueiro, ou no que sobra dele, a visão panorâmica amplia-se. E por ali ficamos, contemplando, deixando aflorar uma mescla de informações que nos foram tatuando ao longo do tempo, embalados no cantar da água das duas ribeiras que circundam a povoação: a Ribeira de Gualdim (referência ao Mestre Templário Gualdim Pais, pela certa) e a Ribeira de Alpreade, onde ainda se podem observar as ruínas de várias azenhas que marcavam o quotidiano doutros tempos. E é neste enquadramento, com o tempo parado, que se recorda o essencial do foral concedido pelo rei, com as antigas lendas a ganharem alforria, dando vida a cada esquina, enquanto se vislumbram algumas casas senhoriais, amplas e desafogadas, contrastando com a necessidade do esforço hercúleo dos braços da populaça para garantirem o sustento, mais de uns do que de outros.
O sol começa a inclinar, tal como o tempo, convidando a uma visita diferente, entre quatro paredes, a fim de restaurar o corpo e a alma. E assim, ainda embalados por histórias de outros tempos, com um leve aroma de Belisandra no ar, se manipulou faca e garfo, com um sorriso de satisfação sempre presente. Estômagos refeitos e mentes claras, bem o sabemos, ajudam sempre a mitigar o caminho.
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