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Chegara de véspera, dando folga à cidade. Após um sono retemperador em casa dos tios, sempre prazenteiros e sequiosos de novidades, deixou para trás as últimas casas da aldeia e, com um suspiro profundo, como que a antecipar as dores da empreitada, meteu-se por uma vereda que, dizia-se, tinha sido utilizada pelos contrabandistas de outrora.
A pouco e pouco começou a sentir o corpo a corresponder, cada vez mais solto, enquanto ia ultrapassando o que restava dos castanheiros que, noutros tempos, eram orgulho das gentes raianas, agora a recuperarem da doença da tinta. Deles muita fome se saciou, com a castanha a servir ementas várias.
Continuou, até entrar numa zona de estevas e giestais, com um ou outro afloramento granítico a adornar a paisagem. Zumbiam abelhas, borboletas emergiam na sua dança silenciosa, a passarada fazia-se notar. De vez em quando, à sua passagem, sentia o incómodo dum ou outro lagarto, bem manifesto no som que emitiam na sua debandada. Um besouro, qual Hércules duma outra dimensão, empurrava uma bola de argila, sabe-se lá para onde, com uma incrível facilidade. E ele, a princípio receoso, começou a sentir-se envolvido na paisagem, numa amálgama de odores, cores e quase imperceptíveis movimentos, enquanto descobria, como se tudo fosse a primeira vez, a diversidade de vida que por ali discorria, longe de qualquer holofote.
O tempo passou, com o pó a colar-se na pele, mas ele nem dava conta. E só quando, depois de galgar mais uma pequena colina, se deparou com as águas dum tranquilo e afável rio, tal como lhe tinha dito o Zé Espanhol, velho sobrevivente de outras eras, é que intuiu que tinha chegado à fronteira.
Aproximou-se da margem. Tirou a mochila, despiu-se sem qualquer pudor e, com algum receio, entrou na água.
Duas ou três bogas, incomodadas na sua pacatez, deram às de Vila Diogo, num movimento brusco. Um melro, no seu canto assobiado, parecia rir-se da sua ousadia. E ele, com a água a acariciar-lhe o corpo, foi soltando as primeiras braçadas, enquanto meditava que, no tempo do avô, atravessar o rio a nado era uma necessidade para driblar os guardas e os carabineiros, nunca um prazer.
Depois do banho, foi a vez do conteúdo da mochila fazer maravilhas. Limpou-se bem na toalha felpuda, vestiu roupa seca e apanhou lenha nas redondezas. Depois, com a solenidade dos momentos rituais, acendeu uma fogueira, tirou a cafeteira da mochila, encheu-a com água do rio e colocou-a ao lume, bem assente em duas pedras. Já com a água a ferver, tirou da mochila o café e, delicadamente, deitou duas colheres na cafeteira. Mexeu bem e, operação fundamental, tirou uma brasa do lume, tal como os d'antanho faziam, e meteu-a na cafeteira. A seguir, sempre sem pressas, foi à mochila buscar uma moldura com uma fotografia antiga do avô e colocou-a de frente para ele. Pegou então numa caneca, encheu-a com o escuro e aromático líquido, pôs-lhe um pouco de açúcar, como o avô gostava, e mexeu demoradamente, como que a adiar o grande momento. Finalmente, com ar compenetrado, levantou a caneca e disse, numa voz emocionada:
- À tua, avô!
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